12 de outubro de 2009

aonde, um dia


“O senhor tem recordação daqueles dias de chuva ininterrupta em Satolep, daquele cinza metálico que se deita sobre tudo e todos? Pois foi num desses períodos, em estado de completo desconforto com o mundo, que comecei a avistar o lugar aonde um dia quisera chegar.” Deu-me um cigarro e pôs outro na boca. Acendeu-os. “E então?”, perguntou-me, depois da minha primeira tragada. “Sinto-me melhor em tudo”. Respondi.

trecho de Satolep, Vitor Ramil

5 de outubro de 2009

Descansa


Hoje vi Satolep anoitecer as duas da tarde. Cada perambulante guardava sua agonia esondida que quase aflorava com a água daquela chuva. As luzes da praça se acenderam, os passarinhos voltaram todos para seus ninhos, os carros corriam descompassados.

Ninguém sabia ao certo como agir naquela situação, naquele entardecer que chegou sem avisar. Os boêmios comemoraram, as meninas sentiram medo e apertaram as mãos de seus namorados, as árvores teimavam em levantar vôo. Satolep. Satolep merecia um descanso. Dorme cidadezinha, o sol já vem cuidar de ti.

8 de setembro de 2009

era noite em satolep

A janela ainda ficou molhada da chuva. A madrugada silenciosa me fez abrir a antiga caixinha preta guardada a sete chaves na última gaveta do armário. Nela havia história, amor e tragédia. Haviam flores murchas. O exemplo concreto do tempo passado. Do tempo passando. Eu abri a caixinha dos sentimentos guardados. Senti a dor do pior dia da minha vida como se fosse hoje. Eu revivi as cenas da agonia e da insanidade. E a cada palavra lida a certeza dos cem anos suportados. Dos cem anos amadurecidos. E dos cem anos que ainda virão, cem anos de solidão, aprendendo a deslembrar esse dia. Volta para o teu lugar caixinha. Volta quando o mundo te entender. Mas volta, um dia. E me faz esquecer.


“I don't know why nobody told you

How to unfold you love

I don't know how someone controlled you

They bought and sold you”

28 de agosto de 2009

Eu quero... AGORA!



Eu quero comprar sapatos. Eu quero abrir um café e que dele seja feito uma casa de arte e que nela tenha bastante vanilla. Eu quero ter uma sala inteira cheia de livros e que do meio deles brote uma televisão gigante. Eu quero que do meio da televisão gigante brote um vídeo-game e que de dentro do vídeo-game brote um montão de sorrisos. Eu quero um montão de sorrisos. Eu quero um sofá daqueles que a gente deita e nunca mais levanta. E quero uma banheira cortada para que seja daqueles sofás que a gente nem senta. Eu quero dar umas três voltas ao mundo. E quero que o mundo inteiro caiba dentro da minha mala. Por sinal, eu quero um montão de malas. Eu quero ter amigos que falam bobagens pro resto da vida. Quero vê-los engordar. Quero ver o tempo passar em suas gargalhadas. Eu quero ver o tempo passar. Eu quero relógios antigos, nem precisam funcionar. Eu quero pintar o apartamento todo de branco de camisa velha, igual a filme. Quero sujar o rosto de alguém de tinta e abandonar o trabalho na metade. Eu quero chegar em casa e no meio da noite ter uma idéia brilhante. Eu quero acordar a todos com as minhas idéias. Eu quero ter para sempre o meu bloquinho recheado de novos projetos, mesmo que nenhum deles fique de pé. Eu quero conhecer um montão de gente de gosto estranho. E eu quero comprar todas as revistas coloridas das bancas de jornal. Eu quero comprar todas as canetas coloridas das papelarias. E eu quero comprar todas as bolsas dos brechós. E eu quero. Quero muito. E eu preciso. Preciso muito trabalhar para pagar os meus sapatos.

20 de agosto de 2009

a dois de dia

Tem um monte de passarinho cantando, tem princípio de chuva e tem um pouquinho de solidão escondida em tudo isso. No canto deles, na roupa dela, no andar, no velho tênis. Tem um pouquinho de solidão em cada abraço que não foi dado, em cada palavra que não foi dita, em cada vazio, cada presente esquecido. Tem um pouquinho de solidão em cada mentira, cada resquício de maquiagem da noite passada, cada barulho de salto alto. Tem nos olhos dela, na forma como segura a caneta, como expõe uma vontade, na meia calça. E tem um pouquinho de solidão em cada carro que passar nesta rua, em cada perfume estranho que trouxe na camisa. A solidão da cidade diminuiu meu passo. Caiu um pingo de chuva na ponta do meu nariz... E eu aprendi a olhar para mim mesma.

12 de agosto de 2009

O homem da minha vida



Hoje é aniversário do homem da minha vida.

O único. Que não falha, que não tarda, que é cheio de defeitos. O único que continua me achando linda mesmo com calça de moletom e sem maquiagem. Que me acorda gritando, que fala mal do meu quarto, que não tem ciúme. Que debocha do beiço. Que me fez ser bamba, que me fez ser samba, que me fez ser bossa. Que me fez ser política. Que me fez ser forte. Que é tango. Que eu peço dinheiro. Que não me dá.

O único homem da minha vida que será pra todo sempre o único homem da minha vida. Que nunca trairá. Que nunca cairá. Que nunca deixará de ter uma resposta pras minhas perguntas. Hoje é aniversário do único homem no mundo que vai estar sempre do meu lado, em qualquer situação, pra sempre.

E as vezes, prestando atenção, na teimosia e no jeito, é que vejo nele meu reflexo. Imaturo e verde, mas que sonha sempre, em crescer perto de alguém que a todo momento leva um sorriso no rosto, que assobia quando nervoso, e que, vai ser o único a secar as minhas lágrimas sem nem perceber, debochar dos amores que tive, e me incentivar a ser sempre mais e melhor, apenas pelo prazer de orgulha-lo.


Ao homem da minha vida, muito obrigada por existir. Um abraço daqueles de meio braço com o mate na mão. Eu tenho precisado deles.


Neneca



5 de agosto de 2009

Dorme


Talvez eu tenha um mundo só meu e que é recheado de poesia transparente nele há bolas de sabão que são tão grandes quando um gigante adormecido deitado ao pé de uma árvore minúscula que cabe na palma da mão vazia de incertezas mas que gritam tão alto no silêncio barulhento tanto quanto a respiração do homem ele dorme e acorda a cada compasso incerto a cada dúvida coesa e a todo momento em que acontece algo que possa mudar o seu caminho estourar as bolhas jogar sabão no chão estourar o chão e jogar as bolhas no ar
O gigante dorme
e eu
acordo e
nesse mundo
cadenciado nós
vamos vivendo

31 de julho de 2009

Perceber

Voltei a ser criança por alguns momentos. Comecei a olhar a rua e as pessoas de uma forma diferente, nova, cheia de vida. Caminhei na noite agitada do centro da cidade bem devagarzinho. Passou por mim um cachorrinho com uma luva na boca, uma meininha linda com o menor all star que já vi, um louco fazendo rimas no sinal e uma loja iluminada - recheada de móveis que ficariam lindos em um galpão -. Talvez estas coisas estivessem ali o tempo todo. O cachorrinho com a luva, a loja, o louco. Mas hoje foi diferente. Hoje tudo se tornou um pouquinho mais encantado.

28 de julho de 2009

Reflexão do dia

"Quanto tempo a gente leva para repousar os olhos nas pessoas ao nosso redor? E ir deslizando pelos pequenos detalhes, na beleza não manifesta e, ao mesmo tempo, ofuscante? Quanto tempo a gente leva para repousar os olhos nos olhos do outro, sem qualquer pressa, sem procurar ali dentro o próprio reflexo?"

Fazia tempo que eu nao lia Rita Apoena... Dica: http://ritaapoena.zip.net/

27 de julho de 2009

Sobre aqueles que são iguais

Não sei nem o que dizer.
Que V E R G O N H A.

24 de julho de 2009

Citando Kant (e pra você, o que é Belo?)


Fazia tempo que uma aula de Filosofia da Arte não chamava tanto minha atenção. Geralmente essa aula serve para tudo, menos para ouvir o que a professora fala. Talvez seja a voz calminha e a forma como ela faz a Filosofia parecer algo tão distante de nós. Mas hoje, especialmente hoje, foi diferente. Ela citava Kant, o Belo e todas suas regras. Para ele o Belo é um objeto de “prazer sem interesse”. O artista deve produzir a obra por deleite, não por outra finalidade. Ele agrada universalmente sem conceito e é uma conformidade a fins sem fim. Fiquei pensando nisso um longo tempo. Prazer sem interesse. Uma das melhores frases que eu poderia ouvir na vida, vinda lá do século XVIII diretamente para os meus ouvidos “contemporâneos”. Nada condiz tanto com a Arte como o prazer. Um artista deve por natureza desprover de considerações/conceitos/julgamentos para encontrar o Belo. Precisa arrebatar, mexer, tirar do sério, mudar o rumo, interromper um hábito e alegrar o dia. É como o prazer de fazer o que se gosta. E só se faz Arte porque se é apaixonado. Prazer sem interesse. Ou seja, gênios.

“Se o meu olhar é múltiplo e o olhar de todos é múltiplo, onde estão os pontos de intersecção?”


20 de julho de 2009

Quente e Letrista


Me peguei pensando em certas coisas que me incomodam, decepcionam, como lã que pinica no inverno. Pessoas que não têm um ponto de vista me aborrecem. Sujeitos em cima do muro, sem opinião - ou que pensam que tem , mas mudam no outro instante para concordar -. “É, era isso que eu estava falando”.

No entanto, o pior dessas gafes (talvez por falta de visão), é não ter certeza do que se quer. Alguém sem planos e vontades é alguém mais pobre de alma. Que não almeja, não atormenta, cai, levanta, se fere, vê a vida como um grande palco, ensina aos filhos a ver tudo da melhor forma, conta aos netos todas as peripécias que passou e ainda faz anedota delas.

Alguém que aperta a mão firme, que fala olhando nos olhos, que abraça e discursa com todas as letras, que não tem entrelinhas, nem medos, nem “e o que será que vão pensar”, “e o que será que eu poderia estar fazendo se estivesse em outro lugar, em outro tempo, e eu estou perdendo esse tempo, como eu vivo meu momento?”.

Que bom é conviver com alguém recheado de certezas. Mesmo que tudo vá dar errado. Mesmo que a vida não seja um filme, novela mexicana, teatro. É poético e encantador ver alguém discorrer sonhos, aspirações. Somos aquilo que passamos aos outros, ninguém é aquilo que imagina ser, ou aquilo que é entre quatro paredes.

Que todas as pessoas do mundo sejam quentes e letristas. Sejam apaixonadas, apaixonantes. Vemos o brilho dos olhos de alguém ao ter certeza de algo, vontade, sede de viver até a última gota, de arrancar os cabelos, de sentir, de chorar. Que cada dia seja um romance, um pedido de casamento, uma mensagem dizendo: consegui aquela conta! Que seja atopetado de certezas. Mas que seja, sempre. E nunca “será?”.

O Bial disse “filtro solar”, eu digo “tenham sede”.


“Estranho é quem não gosta de sentir isso tudo, estranho é quem prefere o amor a paixão, paixão (ou vontade, como queira) é fogo, é fera, é bicho, é desejo, é obsessão, é loucura, é adrenalina. É o que quer que seja, na hora que ela quer que seja, e então, quem rege você não são as teorias e sim instinto. Agindo por impulso nos tornamos verdadeiros. E ai já viu. Tudo vira conto de fadas.” Eu, 2006

Resiliência

I wanna be forgotten,
and I don't wanna be reminded.
You say "please, don't make this harder."
No, I won't yet.

I wanna be beside her,
She wanna be admired.
You say "please, don't make this harder."
No, I won't yet.

Oh dear, is it really all true?
Did they offend us and they want it to sound new?
Top ten ideas for countdown shows...
Whose culture is this and does anybody know?
I wait and tell myself "life ain't chess,"
But no one comes in and yes, you're alone...

You don't miss me, I know.

Oh Tennessee, what did you write?
I come together in the middle of the night
Oh that's an ending that I can't write, 'cause
I've got you to let me down

I wanna be forgotten,
and I don't wanna be reminded.
You say "please, don't make this harder."
No, I won't yet.

I wanna be beside her,
She wanna be admired.
You say "please, don't make this harder."
No, I won't yet...

17 de julho de 2009

Remédio anti-monotonia



...
é tudo o que tenho pra dizer hoje.

10 de julho de 2009

hm. é?


Se tem algo engraçado é uma conversa de duas amigas em total tédio. Entre comentários e risadas é que surgem coisas como isso: uma lista de atitudes que você deve seguir se quiser ser CHATO.
Na sequência...

1. fale sobre cultura
2. seja blasé
3. fale 'você'
4. aprecie latim
5. fale sobre guitarras e artistas que ja morreram
6. ouça pink floyd e todos os tipos de música fora de foco, pq você nao é um 'alternativo', você é um CHATO
7. vá aos lugares da moda na hora em que eles estão fechando - que fique claro, você não é polêmico, é CHATO
8. seja um socialista nao praticante e use a expressão 'típico capitalismo selvagem'
9. use letras maiúsculas e pontue bem suas frases, mesmo que seja no mundo cibernético e mais hahahaha ou hehehehe. Apenas. Porque você nao quer descontrair, você quer chatear. Porque afinal, você é um CHATO
10. critique tudo e todos - principalmente todos. Nunca se satisfaça. Afinal, perfeição nao existe. Nada nem ninguem é bom o suficiente. Nem você, pq você é CHATO

15 de junho de 2009

Shhhhhhhh


Só sei trabalhar na madrugada. Não sei se culpa do silêncio, da programação que rola na televisão, ou, de vez em quando ouvir os passos que fogem até a cozinha e pegam um copo d’água. Escuto músicas baixinho, olho para a cama, sinto pena daqueles que dormem uma bela noite de sono e perdem tudo isso.
Algumas pessoas são assim, acabam perdendo tudo. Eu faço samba e trabalho até mais tarde, e tenho muito sono de manhã. Muito, muito sono de manhã.

"Eu faço samba e amor até mais tarde
E tenho muito sono de manhã
Escuto a correria da cidade que arde
E apressa o dia de amanhã
De madrugada a gente 'inda se ama
E a fábrica começa a buzinar
O trânsito contorna, a nossa cama reclama
Do nosso eterno espreguiçar
No colo da bem vinda companheira
No corpo do bendito violão"

12 de junho de 2009

Feliz dia do amor total



"Amo-te tanto,meu amor...não cante
O humano coração com mais verdade...
Amo-te como amigo e como amante
Numa sempre diversa realidade.

Amo-te afim,de um calmo amor prestante
E te amo além,presente na saudade
Amo-te enfim com grande liberdade
Dentro da eternidade e a cada instante.

Amo-te como um bicho,simplesmente
De um amor sem mistério e sem virtudes
Com um desejo maciço e permanente.

E de ter amar assim,muitoe amiúde
É que um dia em teu corpo de repente
Hei de morrer de amar mais do que pude."

Vinícius de Moraes

9 de junho de 2009

"Tem dias que a gente se sente, como quem partiu ou morreu"


Parecia cena de filme. Enquanto eu tomava um café já morno, reclamava da vida para uma grande, enorme, infinita, amiga, faltou luz. No escuro, o mundo havia parado. Porém, ela havia acabado de falar uma única frase que mudaria a história dessa noite. Ela fica lá longe, do outro lado da cidade, conectada a mim por uma rede cibernética, porém sabe, exatamente, o que está acontecendo aqui, dentro de mim.
Fazia tempo que eu não escrevia, por falta de tempo, nunca por falta de inspiração. Rabiscava em pequenos cantinhos de papel, em meio a matéria, em meio ao que a professora de Filosofia da Arte discutia lá na frente. Mas hoje, a amizade falou mais alto, transpassou a barreira do tempo, transpassou a barreira da distância, fez milagres. A amizade fez brotar um sorriso no rosto de quem estava ranzinza.
Antes do escuro, ela disse: “Olha a gente aqui, olha, todo mundo em função por causa tua, tem coisas que são apenas detalhes”.
E veio a luz. Obrigada pedacinhos de carinho, obrigada por existirem.

21 de abril de 2009

Coisas da vida

"Cada um que passa em nossa vida, passa sozinho, pois cada pessoa é única e nenhuma substitui a outra.
Cada um que passa em nossa vida, passa sozinho, mas não vai só, nem nos deixa sós; deixa um pouco de si mesmo.
Há os que levam muito, mas há os que não levam nada; há os que deixam muito, mas há os que não deixam nada.
Esta, é a maior responsabilidade de nossa vida e prova evidente de que duas almas não se encontram por acaso."

(Antoine De Saint-Exupery)

30 de março de 2009

Sobre planos



Adoro planos. Adoro falar sobre a faculdade, sobre minha futura casa, sobre viagens, sobre amor. Adoro planos, de verdade.
Se derem errado, paciência. Dói, evidente que dói. Mas, passa. E lá novamente, na hora de dormir, aparecem mais e mais deles.
Planos darem errado é como uma mulher cortar os cabelos. No início nos sentimentos carecas, mas logo depois vem aquela sensação de que “tudo” vai ficar mais bonito, e que o novo corte vai nos transformar em uma mulher muito mais confiante.
Não quero nunca deixar de fazer planos. E, sinceramente, que dêem errado. Que sensação boa é poder começar do zero.

18 de março de 2009

"O melhor da vida é isso e ócio"


Precisaria somente de uma garrafa de vinho barato, talvez um copo de plástico, quem sabe uma sinuca, quiçá uma “voz e violão”. Precisaria carregar uma mochila pesada de um canto a outro da cidade, a pé, passo por passo, caso por caso, contando toda vida aos poucos. Precisaria unicamente da coca-cola gelada para despertar o dia, tuas bobagens de sono, da música “de argentino” que descobristes, cebola com açúcar, roupa de domingo.
É pouco? É “a vida”. Recheada. Completa. Com gosto de café passado. Minha vida de mil estrelas.

"Então ficamos
Minha alma e eu
Olhando o corpo teu
Sem entender..."

14 de março de 2009

Aos amigos



Aceito doações de estômagos.

13 de março de 2009

"If nothing ventured, nothing earned"


Eu não tenho ossos de vidro, não sou de açúcar, aprendi a cair, levantar, me decepcionar e acordar no dia seguinte com a cútis em perfeito estado. Já errei muito, já quebrei a cara, falei o que não devia, já fui forte, mimada, sensível e birrenta. Mas, nunca, nunca perdi minha essência, minha personalidade, nunca me deixei de lado, inclui sempre meus defeitos – e pô, algumas qualidades! -.
Passei a noite pensando nisso. Quieta. Muda. Olhando para cima como se esperasse uma resposta dos céus. “Ei, me solta!”, era o que queria dizer a essa barreira invisível e abominável que me cercou durante esses dias.
Se tudo der errado a gente conserta, se o pneu furar a gente troca, se o dinheiro acabar a gente ri, se o sono bater a gente toma café, e dorme, lógico. Se a música arranhar a gente lembra dela mais ainda, se o barco afundar a gente nada, se os pêlos do braço se arrepiarem a gente se rende.
Não quero ter “esse medo infantil de ter pequenas coragens”, quero largar o mulherengo Vinicius, e ser Chico, “agora eu era um rei, e pela minha lei a gente era obrigado a ser feliz”. Quero ter, além de todos os prazeres, a certeza de que se a história borrar, apagamos tudo e desenhamos mais uma vez.
Eu gosto é do estrago”, e no final, assim imenso, quero apenas, pelo cabelo, pela pele, pelo pescoço, pela boca, tua, minha, ser fiel a nós, e a nossa vontade. Saltei. Segura o tranco.

“Sei do escândalo e eles tem razão quando vem dizer que eu não sei medir, nem tempo e nem medo. E se eu for o primeiro a prever e poder desistir do que for dar errado, ora, se não sou eu quem mais vai decidir o que é bom pra mim? Dispenso a previsão. Se o que eu sou é também o que eu escolhi ser, aceito a condição.”

12 de março de 2009

Um nonsense mais que bem vindo


“Intelectuais se aprumam, pigarreiam e começam a responder dizendo “Veja bem...” e daí em diante é um blábláblá teórico que tenta explicar o inexplicável. Poesia serve exatamente para a mesma coisa que serve uma vaca no meio da calçada de uma agitada metrópole. Para alternar o curso do seu andar, para interromper um hábito, para evitar repetições, para provocar um estranhamento, apara alegrar o seu dia, para faze-lo pensar, para resgatá-lo do inferno que é viver todo santo dia sem nenhum assombro, sem nenhum encantamento.”

Talvez eu leia Martha Medeiros há anos porque ela diz exatamente aquilo que eu pensaria dizer, e é muito mais fácil quando alguém organiza nossos pensamentos – acredito que é esse o motivo da legião de fãs, feministas, autoritárias, “loucas e santas” que lêem também).
Pessoas que me fazem pensar? A pessoa que me faz pensar? Eu diria que é o ponto máximo que alguém pode fazer-se notar. Vai além do rímel, do batom, do vestido bem escolhido, do jeito como ela o trata, do bom filme que ele viu, do tênis que ele soube usar ou o bom cd que gravou.
Ele faz ela pensar. Basta. “Royal Straight Flush” . Nada é mais interessante do que raciocinar, uma centena de dúvidas, pensamentos, “uma provocação de estranhamento”, “uma alegria no dia”, é como a arte, é como a poesia, é como uma intervenção, lembra?
Tu és antimonotonia, que espanta o tédio, inspira loucuras, me liberta, faz eu atravessar a rua, tu és arte e poesia, és uma intervenção na calçada, é algo que faz modificar meu dia, tu me faz pensar... E isso... Isso sim é um encantamento.
E como já dizia a Martha: “Esses são os melhores amores...”

7 de março de 2009

Cansativo


É só para os alunos da UFPEL, ou parece que o ano não começou ainda?

5 de março de 2009

A matinê verdadeira, domingo e televisão


Quero apenas a tranquilidade de ser dois, e, mais nada.

15 de fevereiro de 2009

Vamos tirar isso do papel

Hoje apanhei um papelzinho e pus nele certas coisas que, com certeza, darei um jeito, pedirei um empréstimo, venderei minha dignidade, entrarei para jogatina, porém, colocarei em prática.
Coisas pequenas e grandes, coisas importantes e fúteis. Do tipo trabalhar em uma agência de publicidade, ser diretora de arte – pelo menos por um certo tempo -, fazer uma coleção de garrafas e copos de cerveja do mundo todo, isso inclui viajar pelo mundo todo, estudar marketing, passar um tempo na Argentina – tomar Quilmes e guardar -, estudar mais fotografia, estudar mais, beber menos – isso inclui café -.
É uma quantidade infinita de coisas, que só de ler, já dão preguiça. Mas é nela, no momento em que deito a cabeça pra não pensar em mais nada, que sinto vontade de comer o mundo com uma colherada só.
“Vamos tirar isso do papel”. E eu nunca tinha dado o valor merecido desse jargão.

7 de janeiro de 2009

A emoção acabou


Faz tempo que não escrevo. Antes por ocupação, depois, decepção. Talvez ainda esteja em um momento em que não deva tocar nas palavras, posso fazer mal uso, sofrer arrependimento depois.
Hoje deu vontade de historiar, escrever um “não sei o quê” confuso, sem muito complemento, sem muita profundidade. Escrever apenas, encher o papel de dor, ressentimento, inveja, agonia, aflição e amargura. Depois amassar. Recomeçar. Falar de amor. Apenas.
A verdade é não se sente saudade do que foi. Sentimos é medo do vazio. O vazio faz sofrer. Tentamos de todo modo completá-lo das mais diferentes formas, mas e então?
É como um quebra-cabeças, há para cada tipo de abandonado uma “peça”.
E hoje, não há muito o que fazer. A televisão já não anda lá essas coisas, a rua meio melancólica, e um abismo aqui.
Ainda não sei o que é pior. Mas deve ser saber que não há peça para chamar de minha, “a emoção acabou”.
Preciso de um tempo. Coragem Sr. Ilusão. Coragem.

“Você sonhava acordada, um jeito de não sentir dor, prendia o choro e aguava o bom do amor”

5 de janeiro de 2009

Eu sou louca

Seis e vinte seis do dia cinco de dois mil e nove.

“Toda mulher é doida. Impossível não ser. A gente nasce com um dispositivo interno que nos informa desde cedo que, sem amor, a vida não vale a pena ser vivida e dá-lhe usar nosso poder de sedução para encontrar “the big one”, aquele que será inteligente, másculo, se importará com nossos sentimentos e não nos deixará na mão jamais. Uma tarefa que dá para ocupar uma vida, não é mesmo?

Eu só conheço mulher louca. Pensa em qualquer uma que você conhece e me liga se ela não tem ao menos três dessas qualificações: exagerada, dramática, verborrágica, maníaca, fantasiosa, apaixonada, delirante. Pois então. Também é louca. E fascinante.

Nossa insanidade tem nome: chama-se Vontade de Viver até a Última Gota. Só as cansadas é que se recusam a levantar da cadeira para ver quem está chamando lá fora. E santa, fica combinado, não existe. Uma mulher que só reze, que tenha desistido dos prazeres da inquietude, que não deseje mais nada? Você vai concordar comigo: Só sendo louca de pedra.”

4 de julho de 2008

Minha melhor amiga

Ela é rude, mas aprendeu com o tempo que todos têm seu valor.

Ela é simples, no jeito de se vestir. No jeito de calçar os sapatos. No modo como usa seu all star velho e amarra os cadarços com lentos lacinhos.

No entanto, mesmo assim, ela é tão sofisticada. Discursa tão bem e tão bonito. Convence qualquer um. De suas loucuras, de seus temores.

É intensa. Profundamente enriquecedora. Culta. Inteligente.

Uma mulher do século XXI, com os princípios de uma princesa medieval.

Ela é meu cérebro. Meu ponto de partida e de chegada. É minha irmã. Minha cúmplice. Minha consciência. Minha festa. Meu alvoroço. Meu silêncio.

São tantos os vocábulos que te definem. É tão profundo meu sossego quando penso em nossa amizade.

Tu és uma mãe. Uma filha. Um livro. Um copo de leite. Tu és um abraço apertado, uma alma que entende minhas loucuras, meus fascínios, minhas aventuras, meus erros e meus acertos. És única.

Te admirar se tornou um hábito. Desde as primeiras poesias que escrevias na nossa infância. Já eras tão decidida, enquanto eu mal sabia o que eram rimas. Agora és uma futura jornalista, e eu, eu que mal imaginávamos em uma faculdade. Dou-me de cara com o tempo ultrapassando todas as barreiras.

É mais uma fase que estamos juntas. E mais. Muito mais. Somos o exemplo perfeito da cumplicidade, da amizade verdadeira, do afeto, do carinho. E, posso sim, me gabar disso.

Fazes 18 anos... E um silêncio toma conta das minhas letras. Eu mal sei onde termino e tu começas. Sei exclusivamente que somos a dupla exata. Com muitos sorrisos, muitas histórias para contar aos nossos filhos – que serão primos de sangue imaginário -, com muita sorte, com muito charme, muito xuxexo, e claro, muito sarcasmo. Afinal, o que seria de mim sem as tuas gargalhadas.

Esse é o nosso tempo. Essa é a nossa juventude. E agradeço aos céus, por alguém ter feito meu caminho cruzar com o teu, amiga.

Eu te amo muito

Um beijo enorme e um abraço de urso, daqueles.