O romance está
para mim
como o ovo
está para Salvador Dali
E daqui
estou eu
disfarçada de cisne
O romance está
para mim
como o ovo
está para Salvador Dali
E daqui
estou eu
disfarçada de cisne
Aquele dia, eu menti. Não queria admitir, mas menti. Menti pelas diversas razões que levam alguém a mudar os fatos. Fúria, raiva, desprezo, tristeza, medo. Menti porque a verdade me pareceu destoar do momento. Porque de alguma forma minha “nova verdade” me faria mais forte.
Talvez, isso pertença mais ao mundo feminino, os homens simplesmente discutem com argumentos baixos e palavrões bruscos. Nós, mulheres, queremos ir mais longe, queremos dividir a ferida.
As folhas do calendário foram se esvaindo (se colorindo de reuniões e indo com as noites), eu engoli aquela falsidade, e agora, abandono em palavras o que antes tanto me incomodou.
Todos deixam um pouquinho de si quando vão embora, menti. Aos trancos e barrancos (entre gritos e xingamentos) alguém me disse: “Não te preocupa tanto!” (claro, multiplicando a hostilidade dessas palavras). E eu, que pensava não dar valor para estes vocábulos, me encontrei hoje, aqui, com um quê de ser/estar pelo que se é. Leve de vontades.
Dei por mim que todo homem terá defeitos, alguns farão barulho ao comer, alguns não terão lido aquele livro, alguns não conhecerão tal música, alguns terão ciúme, alguns serão caseiros demais, outros serão da noite, todos terão deformidades que os farão mais verdadeiros de essência, menos chatos. Dei por mim que os príncipes não existem, nem cavalos brancos, e que todos que parecem ser assim, caem e se perdem de suas majestosas fantasias.
Posso dizer que menti, pois ficou em mim um apreço infinito pela vida real, pela realidade dos tons dos domingos chuvosos (porque nem todo dia será de sol a pino), e nem tudo estará perfeitamente colocado em seu lugar, nem todos falarão as frases que sonhei, nem todos os trabalhos chegarão nas datas corretas e nem todas as amigas serão do modo como descrevi.
E mesmo que tamanho pessimismo não combine comigo, aprendi a colorir a realidade, ver beleza no perder a hora, admirar uma sexta sem programação, e claro, não esperar que as pessoas façam tudo certo, esperar que elas simplesmente façam, ou não.
Eu menti ao dizer a alguém que havia partido sem deixar rastros. Deixou, sim, uma grande e bonita vontade de ser “simples e suave coisa”.
Ouvindo: Orquestra Imperial (Um dos poucos cd's que escuto de cabo a rabo, e é mais um da série: “Achados e perdidos nas gavetas virtuais!”)

“Não se afobe, não
Que nada é pra já
O amor não tem pressa
Ele pode esperar
Num
Na posta-restante
Milênios, milênios
No ar”

Eis que quero um domingo assim: Filme de Almodóvar. Pincel cheio de cor. Quarto cheio de bagunça. Eis que quero um domingo assim. Braço estreito do abraço forte. Braço forte do abraço extenso. Que demore e se prolongue até a hora de levantar do tédio. Bendito tédio. Eis que quero um domingo assim. Acordar e morrer de ser domingo.

Hoje vi Satolep anoitecer as duas da tarde. Cada perambulante guardava sua agonia esondida que quase aflorava com a água daquela chuva. As luzes da praça se acenderam, os passarinhos voltaram todos para seus ninhos, os carros corriam descompassados.
Ninguém sabia ao certo como agir naquela situação, naquele entardecer que chegou sem avisar. Os boêmios comemoraram, as meninas sentiram medo e apertaram as mãos de seus namorados, as árvores teimavam em levantar vôo. Satolep. Satolep merecia um descanso. Dorme cidadezinha, o sol já vem cuidar de ti.
A janela ainda ficou molhada da chuva. A madrugada silenciosa me fez abrir a antiga caixinha preta guardada a sete chaves na última gaveta do armário. Nela havia história, amor e tragédia. Haviam flores murchas. O exemplo concreto do tempo passado. Do tempo passando. Eu abri a caixinha dos sentimentos guardados. Senti a dor do pior dia da minha vida como se fosse hoje. Eu revivi as cenas da agonia e da insanidade. E a cada palavra lida a certeza dos cem anos suportados. Dos cem anos amadurecidos. E dos cem anos que ainda virão, cem anos de solidão, aprendendo a deslembrar esse dia.
“I don't know why nobody told you
How to unfold you love
I don't know how someone controlled you
They bought and sold you”

Hoje é aniversário do homem da minha vida.
O único. Que não falha, que não tarda, que é cheio de defeitos. O único que continua me achando linda mesmo com calça de moletom e sem maquiagem. Que me acorda gritando, que fala mal do meu quarto, que não tem ciúme. Que debocha do beiço. Que me fez ser bamba, que me fez ser samba, que me fez ser bossa. Que me fez ser política. Que me fez ser forte. Que é tango. Que eu peço dinheiro. Que não me dá.
O único homem da minha vida que será pra todo sempre o único homem da minha vida. Que nunca trairá. Que nunca cairá. Que nunca deixará de ter uma resposta pras minhas perguntas. Hoje é aniversário do único homem no mundo que vai estar sempre do meu lado, em qualquer situação, pra sempre.
E as vezes, prestando atenção, na teimosia e no jeito, é que vejo nele meu reflexo. Imaturo e verde, mas que sonha sempre, em crescer perto de alguém que a todo momento leva um sorriso no rosto, que assobia quando nervoso, e que, vai ser o único a secar as minhas lágrimas sem nem perceber, debochar dos amores que tive, e me incentivar a ser sempre mais e melhor, apenas pelo prazer de orgulha-lo.
Ao homem da minha vida, muito obrigada por existir. Um abraço daqueles de meio braço com o mate na mão. Eu tenho precisado deles.
Neneca

“Se o meu olhar é múltiplo e o olhar de todos é múltiplo, onde estão os pontos de intersecção?”
Me peguei pensando em certas coisas que me incomodam, decepcionam, como lã que pinica no inverno. Pessoas que não têm um ponto de vista me aborrecem. Sujeitos em cima do muro, sem opinião - ou que pensam que tem , mas mudam no outro instante para concordar -. “É, era isso que eu estava falando”.
No entanto, o pior dessas gafes (talvez por falta de visão), é não ter certeza do que se quer. Alguém sem planos e vontades é alguém mais pobre de alma. Que não almeja, não atormenta, cai, levanta, se fere, vê a vida como um grande palco, ensina aos filhos a ver tudo da melhor forma, conta aos netos todas as peripécias que passou e ainda faz anedota delas.
Alguém que aperta a mão firme, que fala olhando nos olhos, que abraça e discursa com todas as letras, que não tem entrelinhas, nem medos, nem “e o que será que vão pensar”, “e o que será que eu poderia estar fazendo se estivesse em outro lugar, em outro tempo, e eu estou perdendo esse tempo, como eu vivo meu momento?”.
Que bom é conviver com alguém recheado de certezas. Mesmo que tudo vá dar errado. Mesmo que a vida não seja um filme, novela mexicana, teatro. É poético e encantador ver alguém discorrer sonhos, aspirações. Somos aquilo que passamos aos outros, ninguém é aquilo que imagina ser, ou aquilo que é entre quatro paredes.
Que todas as pessoas do mundo sejam quentes e letristas. Sejam apaixonadas, apaixonantes. Vemos o brilho dos olhos de alguém ao ter certeza de algo, vontade, sede de viver até a última gota, de arrancar os cabelos, de sentir, de chorar. Que cada dia seja um romance, um pedido de casamento, uma mensagem dizendo: consegui aquela conta! Que seja atopetado de certezas. Mas que seja, sempre. E nunca “será?”.
O Bial disse “filtro solar”, eu digo “tenham sede”.
“Estranho é quem não gosta de sentir isso tudo, estranho é quem prefere o amor a paixão, paixão (ou vontade, como queira) é fogo, é fera, é bicho, é desejo, é obsessão, é loucura, é adrenalina. É o que quer que seja, na hora que ela quer que seja, e então, quem rege você não são as teorias e sim instinto. Agindo por impulso nos tornamos verdadeiros. E ai já viu. Tudo vira conto de fadas.” Eu, 2006

