


o vídeo da intervenção:



Eu, meu livro de rodoviária e os passantes que mal me percebem aqui. No lugar das partidas ficam sempre as mesmas angústias. Ta meio frio, daqueles que a gente sente hora sim, hora não. O Sartre embaralhou a letra e misturou a mim. A liberdade nonsense de que falava destoou com minha vontade de acordar logo
Manhã Manha Acorda Treme Aula Reunião Trabalho Prazo estourado Reunião Reunião Relatório “Tá errado” Faz de novo Vê mais um café Briefing Branding I’m cansading Tudo pro altoing Cumpre as horas Pesquisa Ensino Extensão De mim Dorme Acorda E finge que não gosta por mais um dia
Na minha frente estava Décio Pignatari. Era hora de fazer silêncio. Foi então que ele disse: “A gente já não sabe mais apreciar uma bela poesia”. Eu que por tantas vezes pensei ver o ressurgimento da utopia poética, fiquei triste. Será mesmo que foram-se os amores? As dores? Tenho medo que os poetas, eternos egoístas, não levem em consideração a promulgação. Esta quantidade extrema de lugares onde a poesia ganhou espaço deixa-os levemente frustrados. O que acabou foi a mesa de bar, quando não existia lei anti-fumo, quando o uísque era charmoso, quando as cartas demoravam a chegar pelo correio, quando a publicação em um livro era a única forma de expansão do trabalho. Vemos poesias em blogs, em lambes na rua, em encontros, nos olhares. A poesia está aí para quem ainda a quiser. Os mesmos de sempre. A pequena parcela que sempre se interessou. A única diferença é que hoje já não se pode mais fumar no bar, as intenções chegam por e-mail e os best-sellers são de auto-ajuda – geralmente sobre a forma mais rápida de ficar rico - . No entanto, quem sou eu para contrariar Décio, bom mesmo é esquecer de tudo e apenas ouvi-lo. Um velhinho em forma de poesia concreta.
Dor de cabeça, incomoda. Bater de carro, incomoda. Gritaria, incomoda. Fome, incomoda. Vontade de fazer xixi, então, incomoda e muito! Gastrite, tentar parar de fumar, ficar sem café, insônia, incomoda, incomoda. Nietzsche, incomoda. Saldo zero no banco, incomoda. Então, toca aquela música no rádio, chega uma mensagem no celular, uma nota de dez esquecida no casaco. Em uma fração de segundos os momentos bons esmagam os ruins, afinal, um sorriso no rosto é muito mais memorável que uma cara de pastel. Eaí, o que aconteceu mesmo?
Dia da mulher, muito rosa, vermelho e congratulações. A televisão nos faz mais guerreiras, os cartões mais sentimentais e as flores mais ternas. Há por detrás disso uma fórmula de mulher perfeita: linda, inteligente, trabalhadora e que saiba preparar um jantar apetitoso. Típica mulher de catálogo do shopping, ótimo! Quando antes o marketing sobre o culto feminino girava em torno do ser “dona de casa”, aquela do avental e batom vermelho, hoje o barato é não ter um descanso na agenda. E eu, acho belíssimo! Charmoso mesmo é trazer de bônus aqueles modos cinquentinhas, uma receita de família, uma lingerie de surpresa, um dia no salão. Bônus.
Hoje meu parabéns – e extensa admiração- vai às damas “século XXI”, aquelas que realmente têm o poder da síntese: mil mulheres em uma só. Uma para cada momento do dia, uma para cada compromisso na agenda, que sabe ser o chefe, que sabe ser sexy, que sabe comentar sobre aquele livro, que sabe exatamente o que comprar no super. Uma mulher que “vem com tudo”, em todos os sentidos. São esses tipos que merecem um dia, um cartão e flores, merecem aparecer na propaganda do Dove, serem transformadas em literatura, uma música do Chico. Mulheres perfeitamente imperfeitas, manhosas, mandonas, deliciosamente bem sucedidas, deliciosamente mulheres, deliciosamente de unhas bem feitas. Parabéns.
Ele disse: - Todos deveriam ganhar uma pedra, ela se torna metade de toda nossa força interior, a força que nós deveríamos ter para enfrentar os problemas, o resto fica com a gente mesmo. Pega ela e guarda, quando precisar, segura firme até tudo passar.
E pensei: - Quem me deu esse meio coração, aceita devolução?
"Eu quero uma casa no campo
Onde eu possa compor muitos rocks rurais
E tenha somente a certeza
Dos amigos do peito e nada mais
Eu quero uma casa no campo
Onde eu possa ficar no tamanho da paz
E tenha somente a certeza
Dos limites do corpo e nada mais
Eu quero carneiros e cabras pastando solenes
No meu jardim
Eu quero o silêncio das línguas cansadas
Eu quero a esperança de óculos
Meu filho de cuca legal
Eu quero plantar e colher com a mão
A pimenta e o sal
Eu quero uma casa no campo
Do tamanho ideal, pau-a-pique e sapé
Onde eu possa plantar meus amigos
Meus discos e livros
E nada mais"
Faz cara de quem já sabia, de quem já esperava por isso. Finge que o rumor é antigo demais perto da tua sabedoria. Dá gargalhada como se ela fosse muito pior, de uma ignorância que te faz superior. Arrisca dizer que tem cara de traveco. Balança os cabelos e fala mais alto, diz que ele não deve ter sentido as mesmas coisas que sentiu contigo, e que se experimentou de tudo, fingiu. Ela não tem música em comum, esperança. Pisca os olhos devagar, é sinal de tranqüilidade, talvez ela não tenha ganho uma dedicatória no livro, isso ainda te faz mais adorada. No pretérito. Ela arrancou dele algumas cervejas, uns beijos, algo mais e foi embora. Acreditou ser a rainha da noite. Mas no fim das contas, de camiseta velha, aquele sapo continua sendo o príncipe da tua vida.
no fone: She & Him - You really got a hold on me
Se escrever é uma terapia, sinto muito Doutor, sei que ando relapsa. No entanto, é só uma tempo fora, um pé na grama - outro no céu -, um caminhar flutuante, essas coisas sinônimas à descanso. E então, a gente perde os guardanapos escritos e embriagados, é de praxe. Mas, ao menos eles ficam espalhados pelas ruas da cidade, e talvez, perder as palavras tenha virado a minha terapia de férias.