12 de setembro de 2010

Ela me chamava de Quimera

Parte 1 - Sobre a minha preguiça

Ela dizia que eu tinha mistérios. Lembro disso e rio. Um homem como eu, tão perdido, teria preguiça até mesmo de fazer rodeios. Um homem como eu, que escuta blues e recita Manuel Bandeira, não poderia ser tão enigmático. Acredito que eu a mantinha por perto porque ela realmente acreditava que por detrás da minha simplicidade existia algo mais. Pobrezinha. Ela acordava e falava tanto que mal conseguia acompanhar seu ritmo. Era rítmica, na maioria do tempo. Trazia uma inquietação que me dava certo tédio do que ainda deveria ser feito, eu realmente achava que nada deveria ser feito. Por vezes hesitei em calar-lhe a boca afirmando que o mundo estava em boas mãos e que a nova política não alteraria os nossos dias. Mas fingia prestar atenção. Fechava os olhos e resgatava a mim mesmo daquele mundo criado por ela. Vai ver eu não queria nada criado. Queria usado, rasgado, maltrapilho. Procurava outras que fossem mais simples de gênero e acabava voltando com sorriso amarelo e estômago vazio. Ela me chamava de Quimera e até hoje penso no significado disso. Ainda tento lembrar se eu a chamava de algo.

eu falo insatisfeitismo

É porque as vezes fico pensando se seria melhor usar “pra” ou “para”. Não que “pra” esteja errado e não que “para” seja pomposo. Deveria existir um meio termo entre “pra” e “para”. Eu queria usar “pra” pra ser mais moderninha, tenho achado mais conveniente. Então, penso que “para” para poesia fica mais bonito. Deveria existir um meio termo entre língua coloquial e culta. A língua que eu inventasse pra/para ser o que sou. Meio popular e meio letrada. Uma completa insatisfeita.

6 de setembro de 2010

si doux comme un petit-four

Uma surpresa. Um último cigarro encontrado na bolsa sem uso. Uma música francesa bem melosa para aprender o refrão. Um céu azul-céu depois de uma semana de chuva. Um elogio. Uma cerveja gelada com amigos de coração quente. Uma tarde de feriado para usar chinelo com meia. Uma revista para decorar o apartamento de longe que nem existe. Um bolo com nome de Saúde. Uma planta com nome de Felicidade. Para a vida ser doce, em embalagens de petit poa, em tons de rosa e marrom clarinho. Taí, uma embalagem para cada tipo de vida. Se não existe, algum designer poderia inventar.

31 de agosto de 2010

o som do dia chuvoso

Quando a gente fica ausente, existe um lugar onde possa deixar o coração como um cabide de casacos? Taí, um cabide para pendurar o coração. Depois a gente volta, tira o pó e veste de novo. Quando a gente vai para festa, existe um lugar onde possa deixar o coração como em uma chapelaria? Taí, uma chapelaria para guardar corações. No fim a gente volta, entrega a senha e veste de novo. Quando a gente se sente triste, existe um lugar onde possa alugar corações como em uma locadora de filmes? Taí, uma locadora de corações. Quando cansar do novo a gente devolve, paga o aluguel e veste o velho. Se não, algum artista poderia inventar.


Ao som de:




18 de agosto de 2010

sobre o ombro inimigo

E ele respondeu: "O amor é lindo, Pequena. As pessoas é que são cruéis."

15 de agosto de 2010

diagnóstico

Ontem lembrei que na pré-escola me mandaram pintar um gato. Pintei o corpo verde, manchas em rosa e amarelo, os olhos de laranja e todas as cores que podiam estar lá. Um verdadeiro gato psicodélico, mas bem simpático. Então fui advertida, um verdadeiro escarcéu, chamaram minha mãe, a professora alegou que eu deveria ter algum tipo de “problema”. Quinze anos depois me ocorreu que existe a possibilidade dela estar certa. E isso me pareceu muito bom.


para ouvir no domingo:




13 de agosto de 2010

cá entre os nós


cetim ilustrado por luiz marcel

Te espero chegar porque assim escreveria menos e conversaria mais, sobraria mais papel e menos disposição. Te espero chegar porque acho lindo quando carregas uma mochila que quase tem meu tamanho - e quando chegares quero ver carregar a mim e a ela até o Uruguai ou qualquer lugar onde o Belchior se esconderia. Te espero chegar porque sinto falta do teu arroz, mesmo que eu nem goste tanto assim de arroz. Te espero chegar porque te ver zonzo no corredor dos chocolates, concentrado no corredor da faculdade e fingindo fúria no corredor de casa, são cenas cotidianamente encantadoras. Te espero chegar porque não consegui desatar o nó. Te espero chegar porque é muito melhor te esperar chegar a não te ter por perto e só.

12 de agosto de 2010

caso de morte ou morte

Ela tinha um livro sem nome, um vestido da sorte e um amor impossível. Nunca deu nome ao livro porque se esqueceria dele, nunca usou o vestido porque não encontrou dia especial e o amor impossível morreu de medo. Ou tédio.

9 de agosto de 2010

a menor história do mundo

A menor história do mundo dentro de um livro que coubesse dentro da palma da tua mão. Desde sempre a idéia foi essa. Hoje minha saudade faz dela um jeitinho de te ter por perto. Na sequência:

dedicatória
E só existe uma pessoa no mundo que entenderia a menor história do mundo, “você”.

capítulo 1_toda beira é final de dois

Quando fecha os olhos fica meio sem jeito de perguntar pela enésima vez o que se passa pela cabeça dele. Na verdade, acha que na maioria das vezes nada pensa. Idealiza a resposta: Penso em “você”. Pensamento bom, pensamento ruim, qualquer que seja. Como acontece com ela durante o dia todo. Responde: Nada. E a deixa sossegada. O fato de ser tão tranqüilo manterá o compasso. Faz silêncio por cerca de dois segundos, tempo o bastante para ela prestar atenção na luz que entra pela frestinha da janela e plagia a lua. Ela ainda desconfia que ele foi quem mandou colocá-la ali. Que foi ? Ele pergunta. Nada, ela diz. "Só acho que eu poderia escrever a menor história do mundo sobre a gente".

capítulo dois 2_ela

(Uma história que começa com ela para que ela seja eu, e eu apenas seja a voz que narra a história bonita.)

Café a cada cinco minutos. Disfarça que é para produzir mais, ter mais idéias, sentir-se mais acordada. Mente, o vício é pelo ar saudosista de uma Paris que nunca conheceu e de um inverno que não seja úmido. Perde na banqueta os livros misturados as revistas que escondem as canetas, os óculos e os pedaços de papel onde anota versos. Diz que Camelo é o melhor porque as músicas dele doem, que na teoria de boteco bom mesmo é quem fala mais alto, que acredita em amor, mas que dele quer distância.

capítulo 3_ele

Criou um mundo chamado “Folha em Branco”. É para lá que ele foge quando fica em silêncio por alguns minutos. Transforma o branco em cor, linha e devaneio. Tem sempre um pensamento convertido em arte nos objetos pelo quarto, nas roupas que usa, no cabelo que faz com que as crianças fiquem abismadas. Perde na banqueta as tintas misturadas aos pincéis que escondem as canetas, os óculos e os pedaços de papel onde anota versos. Diz que Amarante é o melhor porque as músicas dele trazem uma história, que bom mesmo é quem discorda, que acredita no amor, mas que não é hora.

capítulo 4_eles

Alguém tinha que dar o primeiro passo. Ela disse: “E então, tem gostado da cidade ?”. A Satolep que para ela parecia tão pacata e pequena tomara novos ares desde a chegada de tantos desconhecidos. Ele disse gostar, com ar de que esperava mais, um pouco mais de tudo. “Pede mais um copo”, “Conta mais como é aquela parte do Rio de Janeiro”, “Acho que você adoraria a Lapa”, “Você ? Que engraçado ouvir você!”. Alguém tinha que dar o segundo passo. Ele surgiu, lento e veemente, um beijo e enfim.

capítulo 5_como convém que seja

Ele canta, toca gaita, faz bolinhos para saborear depois de preparar o jantar. Sente vergonha quando a casa anda suja, quando não consegue chegar no horário. Ele tem um jeitinho manso, como quem não se preocupa a longo prazo, como quem vai viver por mais de cem anos. Traz uma poesia escrita no papel rasgado do caderninho onde desenha, paga um café, passa no supermercado só para matar aquele desejo que ela falou. Ele escuta tudo que ela diz, mesmo que pareça sempre distraído. Ela reclama. Pede atenção. No fundo sabe que ele se dedica, só não o chama de príncipe encantado porque tem um ar vadio. Mas gosta, afinal, assim fica mais charmoso. Ela fala muito e geralmente o atordoa com tantos pedidos e manhas, mas gosta mesmo quando escolhem sempre a opção mais simples para o sábado. Ela escreve um poema em pensamento toda vez que ele mexe nos seus cabelos, vai passando pela orelha, vai chegando ao pescoço e a segura com força, como quem não a deixa escapar por nada. Eles acreditavam no amor, perto, oportuno, (s)enfim.

7 de agosto de 2010

los gritones

Há de se compartilhar tudo que é bom...

2 de agosto de 2010

deixa pra amanhã

A gente deveria ser forte, não ligar para o que os outros falam, não escutar as mazelas daqueles que não querem a gente bem. A gente deveria pensar grande, nos verdadeiros problemas do mundo, na fome, na miséria. A gente deveria ser menos afetuosa, menos idealista, menos egoísta, menos sonhadora. Mas acontece que, no fundo, a gente sabe onde erra. E quando alguém fala em voz alta, parece um verdadeiro chá de consciência. Banho de água fria. A gente não é forte, a gente liga para o que falam, a gente escuta mazela e acredita que um problema nosso é maior que a fome no mundo. E mesmo que isso seja muito feio, ainda não tive iniciativa de mudar tal situação. Amanhã volto a ponderar sobre outros. Hoje vou cuidar do rei da minha barriga.

Maman, je suis cliche

Domingos geralmente são chatos. Trazem uma cara de melancolia que me angústia. Fico rabugenta e na maioria dos planos ofertados não vejo diversão alguma. Hoje foi diferente, dei sorte. Zapeando a TV me deparei com algo que me faria pensar o resto da noite. Eis que o homem inventou o “Telecine Cult”. Então, “Hell Paris 75016” foi um dos melhores livros que já li. Existem alguns que vão além da cabeceira - taí um bom apelido para móvel -, e este foi um deles. Fútil, mas forte, - vai ver é porque era adolescente e com ele aprendi algumas sacanagens -. Quando passei pelo canal, iniciava o filme com o mesmo título. Eu, meu preconceito com versões cinematográficas dos meus livros e ninguém mais, assistimos a maluquice de Lolita Pille em cores. Sou daquelas chatas, critiquei Budapeste, Dom, Benjamin, discuti com quem entendia disso muito mais do que eu. Dessa vez foi diferente. “Hell” é deveras uma obra prima e, me calo. Já era em tempo de dormir e acordar cedo na segunda. E, felizmente, iniciou “Bonecas Russas”. Cheguei à conclusão que, enfim, cinema francês é uma delícia mesmo. Não porque os personagens são mais quentes, nem porque geralmente fumam – e isso faz com que eu me sinta mais aceita pela sociedade -, mas porque hoje fui deveras convencida de que ninguém faz isso melhor que os caras. Dormirei com vontade de largar tudo e escrever romances, comprar uma câmera, estudar fotografia, encantar a vida dos outros. E mesmo que eu saiba que não vai acontecer, é exatamente isso que um filme deve causar: Vontade de desligar a TV e ir viver tudo ao vivo. Pensamento clichê, domingo clichê. Não podia ser melhor!

21 de julho de 2010

literalmente amor

Uma proposta de trabalho, pouco tempo, um problema solucionado. Alegrar o dia dos outros nos pareceu um conceito bem bacana. O final do semestre deixa todos, um tanto quanto, menos racionais, menos criativos, até menos amados. Bilhetinhos achados e perdidos entre tantas palavras soltas, o carinho de um estranho para encantar – ou incomodar – um pouquinho. Um montão de poesia escrita pela gente e espalhadas dentro dos livros da faculdade.









o vídeo da intervenção:

1 de julho de 2010

maldito seja jean-paul

Eu, meu livro de rodoviária e os passantes que mal me percebem aqui. No lugar das partidas ficam sempre as mesmas angústias. Ta meio frio, daqueles que a gente sente hora sim, hora não. O Sartre embaralhou a letra e misturou a mim. A liberdade nonsense de que falava destoou com minha vontade de acordar logo em casa. Eu que tanto levantei essa bandeira me peguei pensando nas vezes que não fiz sentido algum. Já é hora de ir embora. Deixei no velho banco um bilhetinho que dizia: “Et vous êtes libre?”. Me fui. Sentimento de dever cumprido. No lugar das partidas hão de ficar, sempre, as mesmas angústias.

28 de junho de 2010

interlúdio

Acordei meio sem graça. Meio com vontade viajar. Meio com vontade de ficar. Meio assim. Meio nunca é bom. Bom é inteiro. Se não for, que arranque os pedaços, que nada sobre. Melhor que seja ausência. Metade nunca é o bastante. Metade logo termina. Metade da graça. Metade da vontade. De ir, de ficar. Acordei meio assim, meio morna, meio branca, meio no reflexo da janela, meio cigarro, meio projeto escrito. Logo passa. É meio fim. Meio sem nexo. Meio sem cadência. Inteiramente em silêncio.

23 de junho de 2010

severino cadê meu briefing?

Manhã Manha Acorda Treme Aula Reunião Trabalho Prazo estourado Reunião Reunião Relatório “Tá errado” Faz de novo Vê mais um café Briefing Branding I’m cansading Tudo pro altoing Cumpre as horas Pesquisa Ensino Extensão De mim Dorme Acorda E finge que não gosta por mais um dia

21 de junho de 2010

(s)enfim

Prepara o jantar. Faz do silêncio um charme. Discorda de mim. Serve mais um copo. Desespero meu. Química nossa. História. Geografia. Filosofia do teu pensamento. Apaga a luz e chega mais perto. Braile do teu corpo. Verão do inverno. Apaga o sol e começa tudo outra vez. Discorda da Geografia. Serve mais um pensamento. Química da luz. História do teu corpo. Minha filosofia por água abaixo. Braile com o sol. Faz charme com o meu desespero. Começa tudo outra vez. Enfim. Sem fim.

15 de junho de 2010

monocromia

Foi quando disse: “Coloca fora essa caixinha de lápis de cor que tu teimas em carregar. Deixa as pessoas em preto e branco. Essa mania ainda te faz mal”. Isso aconteceu faz tempo. Tanto tempo que havia esquecido. Lembrei. Do conselho e da caixinha. E, cheguei à conclusão que deveria colocar os dois no lixo.

14 de junho de 2010

chá de habu

Bebi o primeiro gole e coloquei para tocar “Amar La Trama”. Existe uma aura envolvente no espanhol. Algo que não seja compreensível no primeiro ato, que deixe certo mistério, que enrole a língua. Espanhol é certo suspiro. Suspiro. Suspiro é verbo e substantivo. Tenho pensado besteira. Os olhos piscam mais devagar. Alguém enviou um perfume, alguém enviou um bilhete. Preciso agradecer. Preciso beber menos café. Preciso agendar melhor os compromissos. Prestar mais atenção no pôr-do-sol. Preciso pensar menos, escrever mais. Preciso de um segundo gole. Preciso de alguma coisa que ainda não sei bem. Mas, preciso. E isso me leva ao terceiro, ao quarto, quinto gole. E suspiro vira verbo. E o verbo vira eu. Eu viro substantivo. E, eu suspiro.

1 de junho de 2010

a gente quer ver horizonte distante

Chegou Junho. Nem vi. Vou fazer vinte anos. Um absurdo que me parece mais poético. Vinte anos. Soa melhor. Chegou Junho. O mais gélido dos doze. Encontro-me aqui, ouvindo Odair José, avistando o calendário. Chegou Junho. Quer dizer que, metade do ano já se foi e metade do ano ainda está por vir. Mesmo que isso, no fundo, não vá mudar em nada. Chegou Junho. Hão de saciar os namorados, as rosas, os presentes. Hão de embravecer os mal-amados. Chegou Junho. Deixando a ponta do nariz gelada, as mãos mais abrigadas, as aspas escondidas. Ninguém o canta com quimera. Tão pouquinho tem outono. É meio termo. Chegou Junho. E quanto a mim, sigo assim. Como não fazê-lo?