1 de novembro de 2011

a culpa é do Fidel

Quando eu fiquei sabendo estava no carro. Senti vontade de parar e entender o que estava acontecendo como se a notícia fosse com o meu avô ou algo assim. Pensei: mas será possível, isso parece gripe!
A primeira vez que eu vi piadinhas na internet pensei que eram só mais alguns dos tantos babacas que a gente vê por aí. Eu deixei de escrever porque tendo lido muito e se tem uma coisa que eu aprendi é que as pessoas precisam de alguma bandeira para levantar. “Saiu de moda falar do idiota do Rafinha Bastos, então vamos falar o que não sabemos sobre o Lula”. Prometi a mim mesma que eu não me meteria nessa. Faz um tempo que eu estou contida e não discuto sobre política. Só que dessa vez, ou eu sairia no braço com alguém ou só perderia tempo (o que esse ano está sendo muito valioso).
Acontece que eu dei a sorte (ou o azar, vai saber) de cair em uma família politizada. Com pais que sempre foram de esquerda, que fugiam do DOPS e que trabalharam pra que o nosso país fosse o que é hoje.
Acontece que é mais do que isso. Acontece que a minha mãe também teve câncer e se tratou pelo SUS, esse mesmo das piadinhas (posso dizer de boca cheia que isso não foi um dos momentos mais engraçados da minha vida). Acontece que o meu pai é safenado e também se tratou pelo SUS. Acontece que eu não consegui ficar quieta ao ler pela enésima vez alguém fazendo piada sobre essa situação. Meus pais, aqueles que lutaram pelo “poder” da esquerda no Brasil, foram contemplados pelo “país de todos”.
E mesmo que eu esteja ocupada e só sinta vontade de mandar todo mundo calar a boca (assim mesmo, bem estúpida), me dei ao luxo de parar tudo e escrever aqui a minha vergonha alheia. Vergonha de quem fala sem saber sobre o que está falando, vergonha de quem “compartilha” sem saber porque está compartilhando, vergonha de quem macaqueia e “segue” alguém sem sentido, vergonha de quem não reconhece onde chegamos (e o homem que nos encaminhou a este desenvolvimento) e vergonha de quem finca os pés na ignorância e nos impede de ir para frente.

(Agora eu vou voltar a estudar porque preciso que esse meu computador comprado em doze vezes com uma bolsa do MEC seja usado em prol de algo melhor do que lições de moral.)

28 de outubro de 2011

pra dar o fora com o meu broto

Só sei que quando acabar essa maratona eu vou curtir com o meu broto. Dando tudo certo ou dando tudo errado eu vou curtir com o meu broto um bocado de dias. Vou colocar todos os livros de volta na estante, o Omeprazol de volta a caixa de remédios e vou dar o fora com o meu broto. Porque eu “nunca fui muito de ganhar” e a probabilidade de me dar mal é muito grande. Também porque, se tudo der certo, preciso acumular muita coragem e pra isso nada melhor que uma viagem. Eu vou viajar com o meu broto. Tirar fotos com ele. Conhecer um punhado de lugares diferentes ao lado do meu broto. Vou comer um monte de coisas exóticas e torrar todas as minhas economias em chinelos havaianas e água de côco. E então eu vou voltar. Caso tudo dê certo, caso tudo dê errado, eu terei que voltar. E aí, depois eu vejo, acerca da vida, das economias e do acúmulo de chinelos. Só sei que agora eu preciso dar o fora com o meu broto e mais nada.

21 de agosto de 2011

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Não existe tristeza pior do que lembrar da felicidade.

quer ser meu amigo?

Tem dias que sinto vontade de arrancar meu coração fora. Vê-lo e segurá-lo forte. Abraçá-lo até ele se acalmar e ficar mansinho. Depois, convencê-lo de que não há motivo para a tormenta, para a agonia, para sentir-se só. Eu o colocaria para ouvir jazz e nós dois fingiríamos que gostamos. Tem dias que eu queria ser amiga do meu coração, mas ele simplesmente me ignora.

5 de julho de 2011

pelo meio de tudo



Eu nunca disse que seria tranquilo ficar distante de quem a gente ama. Nunca disse que seria simples fazer planos furados. Nunca passou pela minha cabeça que o último ano de faculdade seria moleza. Nunca desdenhei os trabalhos de final de semestre, os livros, os prazos. Nunca faltei com os compromissos e nunca disse que queria desistir de tudo. Acho que nunca quis que fosse fácil e nunca comentei que estava sendo muito difícil. Como em uma bola de neve já nem sei onde tô em meio a tudo isso. Em meio a tanta distância, prazo, livro, neve. Tô pelo meio. De tudo isso.

7 de junho de 2011

Babacas, mexam comigo


Se hoje eu tivesse o poder de colocar uma nova palavra no dicionário seria EMPUTECIMENTO, do verbo ficar puto. Não porque nos dias de hoje ninguém dá bola pra palavra, pra responsabilidade, pro outro que tá do lado. Nem porque ninguém tá nem aí se esse outro tá passando trabalho. Não porque gentileza já não faz mais sentido. Nem porque tem gente babaca que não tá nem aí pra nada disso.

O emputecimento não existe por esses motivos porque ao mesmo tempo que isso acontece, tem alguém muito legal bolando um novo projeto, um novo show, uma nova poesia, uma nova revista de design – puxando pro nosso lado. Essas pessoas fazem valer a pena conviver com os babacas e isso acontece desde que o mundo é mundo.

O emputecimento acontece quando um babaca desses, que não doa nada pra sociedade, que não pensa em nenhuma novidade, que não faz nada de inovador, que não tem ninguém pra elogiar, que ninguém pode dizer: “QUE INCRÍVEL ISSO QUE ELE FAZ!”, ou melhor, “COMO ESSA PESSOA SE DESTACA!”, incomoda um amigo nosso. Porque, além disso, são medrosos e falam as frases pela metade. E, deixar no ar é bem coisa de babaca.

Eu nunca gostei de escrever reclamações. Já tem tantas no mundo. Na fila do banco, na padaria, na bar. Queria só fazer e escrever coisas bonitas. Mas, tem dias cinzas como esse que a decepção é tamanha, que eu não poderia escrever nada além do que sobre a palavra EMPUTECIMENTO.

19 de abril de 2011

quase fim, quase começo

Se formar não é ruim. Se o emprego demorar a gente pede empréstimo pra mãe, vai levando. Se o mestrado não vingar a gente espera mais um pouco, vai ver a banca acostuma com a nossa cara e resolve dar uma chance. Se não tiverem planos mirabolantes para abrir uma empresa de sucesso, a gente toma cerveja pra esperar o insight.
Acontece que alguém precisa dizer isso pra gente em voz alta, com uma carta, placa, outdoor, post it. Que o amor dos pais, dos amigos, do namorado, não vai acabar se a gente resolver ir pra outro lugar. Que desempregado pode ser interessante. Que o TCC não é a última vez que a gente vai abrir o Word. Que a gente vai poder ver os (ex)colegas sempre que sentir saudade, vai poder continuar tomando mate junto e vai poder continuar reclamando das mesmas coisas.
Alguém deveria esperar a gente na frente da faculdade e dizer: “Vocês sempre vão poder voltar”. Dizer que a gente deixou um pouquinho de si ali, que fez alguma diferença a nossa presença e dedicação esse tempo todo.
Eu não quero ter medo de me formar, mesmo que já tenha, mesmo que o medo seja misturado à vontade de colocar logo a cara no mundo. É um medo bom. Um medo de quem não se imagina fazendo outra coisa além do que faz. É um medo que nos faz aproveitar melhor esse último ano de decisões inacabáveis. Inacabáveis até o momento que a gente decidir fazer outra coisa.
Seria muito bom ouvir isso de alguém, mesmo que seja de mim mesma. Mesmo que eu seja quem cole o post-it no espelho, mesmo que eu seja quem diga que essa (ainda) não é a hora de borrar a maquiagem e que ainda tem muita coisa pela frente.
Tem quem diga que se fim fosse bom, era começo. Anotei no papelzinho que a gente deve ficar alegre, porque felizmente, tem os dois.


18 de abril de 2011

amor à vista


Acho engraçado lembrar que depois de ver ele não pensei em outra coisa senão numa maneira de tê-lo pra mim. A palavra “conquista” tem um quê de malandragem, mas acho que eu precisara disso porque de alguma forma sabia que ele me faria feliz. Uma conquista de amor à primeira vista é conquista branca, tem credibilidade poética.
Aqui tem Toquinho, tem início de frio e tem coração quentinho. Me peguei pensando nisso, no dia que ele chegou de camiseta de marinheiro e mudou tudo por aqui.

3 de abril de 2011

enquanto dorme, felicidade plena e cerveja quente

A sensação de que nada pode melhorar não quer dizer muita coisa. A gente se acostuma, se adapta, se cansa e acha que tá tudo muito bom. Um copo de cerveja gelada em um dia de calor talvez não possa melhorar muito. A questão é que: Piorar, tudo pode. Mas, assim, ficar tudo bem, é uma dádiva.
Não quero agradecer ao cosmos pela vida bem levada, pelo amor bem vivido, pelo estudo bem fundado. Não quero dizer: Ah, se melhorar estraga. Eu quero agradecer pela segurança de tudo poder dar errado. Azar é do errado. Isso é felicidade plena, não o cansaço de poder melhorar todas as situações.
Felicidade plena é quando todo o resto compensa, quando o sono é leve para acordar quando o outro se mexe, quando o cartão coloca no crédito e tem praia mais tarde. Felicidade plena é ter paciência para esperar a cerveja gelar, e claro, ter a sabedoria de que beba-la quente é ter história pra contar. Uma história como a nossa pra escrever de ressaca.

Rio de Janeiro, 2011

6 de fevereiro de 2011

sala de espera

Faz mais de mês que sofro de saudade. Sofrer desse mal dói muito porque distância já traz ânsia no nome e não é por acaso. Ele mora longe de mim, tem outro sotaque, outros costumes, come “tapioca” e eu nunca provei. Talvez sejam mais motivos para eu me encantar com ele a cada dia que passa. O mesmo encantamento do dia em que ele sorriu para mim e mal sabia que podia me levar para onde quisesse. Agora a ânsia é de vontade. Sofrer desse mal incomoda muito porque “nem o prego agüenta o peso do relógio” e as horas se tornam dias. Acho que aprendi que esperar tem um quê de bonito. Ainda falta. Mas, falta pouco. E então, o único motivo para sofrer será de calor.

31 de dezembro de 2010

falar sobre o ano novo, CHECK

Escrever feliz já é meio complicado – tirando as mocinhas de filmes escrevendo colunas que irão mudar o rumo da história, não conheço ninguém que escreva sorrindo -. Escrever agradecimentos é mais complicado ainda. A gente sabe o que fazer quando tudo dá errado,a gente chora, quebra coisas, fala mal de meio mundo. E quando tudo dá certo? O que a gente faz?Só agradece?
Hoje é o último dia do ano. O ano do “Bota pra fazer”, como se existisse uma lista mental: “Esse ano preciso dar jeito nas coisas da faculdade... CHECK... Preciso viajar...CHECK...Preciso disso... CHECK...CHECK, CHECK”. E os “check” foram surgindo um a um, riscando a minha listinha, abrindo um sorriso bem grande e transformando as vontades em fatos. Todos os projetos, metas, (e até quilos que deveriam ser perdidos), tudo apareceu em sua hora, tudo foi acontecendo e me transformando em uma pessoa menos reclamona.
Ao final eu deveria “agradecer a minha família, ao meu amor, aos meus amigos que sempre me apoiaram e ao blogspot pela oportunidade”. Mas me dei conta de que também deveria agradecer a mim, e me dei conta de que me permitir ser uma pessoa feliz já é o maior dos agradecimentos.
Não vou desejar dinheiro, felicidade, nem “tudo de bom” a quem gosto. Vou desejar um ano recheado de pequenas satisfações, sejam elas quais forem. Não existe no mundo nada melhor do que se sentir vivo para desejar, talvez conseguir realizar e sempre voltar ao ponto de partida.
Um feliz ano-novo e três colheres de lentilha!

cafuné por café

Quem diz que amor é troca não ajuíza muito bem. Ora “amor é troca”. Trocar a gente troca presentes no amigo secreto da empresa, troca figurinha da copa, troca mensagem com as amigas, troca um “tudo bem?” com o vizinho, troca uma ajuda com o irmão. Ninguém troca amor porque não existe escambo, seria muito injusto. Se assim fosse, homens como Saramago, Chico e Vinícius nunca encontrariam mulheres para amar. “Então, se eu te fizer uma música, tu vens com uma sobremesa a altura, combinado?”. Amor foi feito para ser do outro, nunca nosso, se fosse nosso era auto-estima. Amor foi feito para ir embora, nas cartas, nos carinhos, nos beijinhos, nos bilhetinhos. O amor que fica é triste, amargurado, só. Quem diz que amor é troca me parece muito egoísta. Quem diz que amor é troca não conheceu o bom do amor, não acordou antes, não comprou presentes fora da data marcada. Quem diz que amor é troca nunca se deu conta de que quem ama de verdade só se importa com o amar, e que todo o resto que vier é lucro, nunca troco.

16 de dezembro de 2010

par de asas

Não podia deixar de colocar aqui. Qualquer semelhança não é coincidência.

4 de dezembro de 2010

vou ficar com esse!

Todo branco, com alguns móveis de madeira bem clarinha, e vários livros com mais de 300 páginas para decorá-los. Gaiolas cor de rosa sem passarinhos perto da janela e almofadas com estampa de florzinha miudinha no sofá que é herança da avó. Um quadro do Che Guevara, um montão de discos do Chico, uns desenhos de modelo vivo da faculdade presos com alfinete que sempre voam quando bate um vento. Panelas fofinhas da nova linha da Tramontina, que nem dá vontade de cozinhar. Os vinhos – que não faltam - ficam no armário em cima da mesa de almoçar, que encostada na parede perde dois lugares, mas que em dia de festa fica no meio de tudo. Sempre um amigo e outro que passam e voltam. Uma luzinha de abajur antes de dormir. Uma camiseta e um par de meias que corre até a geladeira cheia - de imãs - no meio da noite. Duas cadeiras na sacada, um cinzeiro no chão e dois pés para cima. Um barulho de carro que passa lá embaixo e vai embora. Tlin-tlon, uma visita que traga poesia.

Aluga-se.

assim, mal passado?

Existem dias ruins e pessoas assado. Daí a gente se preocupa tanto que esquece daquele cd da Karina Buhr. Lembrei e coloquei pra tocar. E os males viraram só um momento em que as pessoas assim, interpretaram mal.

29 de novembro de 2010

afável gesto de ser inesquecível


Eu devia ter uns cinco anos quando minha mãe – que sempre foi de muitos admiradores e amigos – fez uma amiga russa. Lembro dela ser ruiva de doer e - na minha feliz ignorância- seu português era uma gracinha. Um dia minha mãe apareceu em casa com uma Matrioska que havia ganhado de presente dela. Lembro da minha mãe abrindo bonequinha por bonequinha, dispondo-as na mesa uma a uma, e eu com olhos de admiração, ouvia a lenta explicação sobre família e como aquilo era muito bonito. O que pode parecer um afável gesto de carinho da amiga, da minha mãe, do homenzinho russo que inventou as bonequinhas, para mim até hoje representa muito mais. Representa uma infância e vida com filosofias diferentes sobre aquele presente. Ainda não sei bem. Mas, acredito que toda mulher é um renascimento de suas gerações. Das bisavós, das avós, das mães. Remodela a saia, busca aquele sapato que fica um tantinho apertado, aquele echarpe que voltou a moda, aquele anel que ficou de herança. Nós somos quem elas eram antes, só que com outras chances e com conselhos que não vamos ouvir nunca. Nós somos elas customizadas, com lavagem anos 2000. E quando antes eu observava aquelas bonequinhas e dizia “Olha, essa pequeninha aqui sou eu, mãe!”, hoje penso que sou aquela que abriga as outras. Todas as grandes mulheres da minha vida estão no recheio da minha alma.

sobre as coisas que ele reclama

Ele reclama que eu escrevo coisas tristes, mas mal ele sabe do bem que me faz. Ele reclama que eu reclamo muito, mas mal ele sabe que quem o faz vive mais. E eu vivo muito com ele. Ele reclama sobre as minhas inspirações e mal sabe que eu viveria com ele só pelo fato de ser ilustrador. Nem precisava ser malabarista. Nem cozinheiro. Nem andar de monociclo. Vai ver nem precisava saber de história da arte, nem sobre os touros do Picasso e nem me corrigir quando eu falo do Cezanne. Ele reclama que eu escondo os problemas e reclamo muito. Acontece que ele não combina com coisa que dá errado. Então eu fico quietinha e escrevo sobre as coisas infelizes. Porque com ele eu falo muito. Pena que não falo sobre as coisas que ele reclama.

23 de novembro de 2010

da série: impossível


tem como não amar esse clipe?

16 de novembro de 2010

até mais tarde

Eu preciso trabalhar amanhã cedo. Eu preciso pagar as contas que me envergonham e preciso juntar dinheiro pra viajar. Eu preciso de férias e preciso de um curso pra elas passarem rápido. Eu preciso dormir no natal e acordar quando passar o carnaval. Não tenho vergonha de dizer que não gosto do Natal. E, como diz o meu pai, a Bahia destruiu o carnaval. Axé é muito ruim - se ainda tocassem marchinhas eu até que acordava antes -. Eu preciso trabalhar amanhã cedo. Eu preciso desligar a música, toca Bebel Gilberto a umas três horas. Eu preciso ficar tranqüila quanto aos planos que fiz pra mim, sozinha, daqueles que a gente faz uma lista e pensa como vai se virar. Mas daí eu reflito que não sei fazer isso. Sempre teve alguém que fizesse pra mim, que me pegasse da mão e dissesse o que fazer, que planos fazer, que lugar escolher (iamos), mesmo que no fim eu sempre sugerisse o que seria mais interessante. Daí que da sugestão fez-se a escolha. Se der errado eu não posso culpar ninguém. Isso sempre foi tão tranqüilizador. E é por isso que eu preciso trabalhar amanhã cedo. Escutar “eu avisei” de mim mesma, me parece humilhante demais.

13 de novembro de 2010

uma tristeza só



Existe um tipo de tristeza quietinha que pode ser muito cruel. Uma tristeza que a gente não divide, não comenta, não conta pro melhor amigo. Ela é assim porque parece bobagem, porque as vezes nossos motivos não são tão relevantes aos olhos dos outros. Ela também é assim porque acreditamos que quem nos conhece de verdade deveria reparar em nossas vontades, anseios, e porque não, nas angústias tímidas. Daí a gente prefere nem falar, fingir que tudo está certo, que quando fica pensativo é “nada”. Assim a gente vai levando, enganando bem a si e aos outros. É por isso que esse tipo de tristeza é tão ruim, porque a gente não divide, porque ninguém diz que “vai passar”, porque ela é só e só da gente.

18 de outubro de 2010

"tô acordada!"

Tudo o que ele faz é bonito. E eu de pouca criatividade rezo para sempre ter uma nova reação a cada encanto. Tudo o que ele faz é bonito. E eu de pouco dom artístico fico pensando como alguém pode alimentar-se de tanto domínio da linguagem poética – e claro, visual -. Tudo o que ele faz é bonito. E eu de pouca memória sinto vontade de filmar seu dia para depois colocar trilha sonora. Tudo o que ele faz é bonito. E eu de pouca esperança sinto medo do dia em que ele não se contente com amor e comida (o que seria uma coisa feia). Tudo o que ele faz é bonito. E eu que sempre fui de muito sono hoje acordei e fiquei pensando nisso.

3 de outubro de 2010

Niilismo

Quando olhei o sol já começava a explicar as árvores da praça bonita da cidade. Tava tudo meio torto, meio embaçado e pela cor do céu já podia dizer: “Bom dia!”. Duas vezes a saudação. A gente ainda não tinha dormido. Aquele dia foi mais longo, mais sujo, mais despedaçado, o dia mais embriagado das nossas vidas. Engraçado porque a lágrima que antes era doce, tinha gosto de álcool e evaporava. Engraçado porque no cordão da calçada a gente reclamou de tudo. Engraçado porque a gente se diz jovem e logo esquece do que reclamou. Engraçado. Engraçado porque a gente sempre disse que ia embora. Engraçado porque a gente fazia planos e hoje eles me parecem tão fora de moda. Engraçado porque anos depois a gente ainda senta no mesmo lugar. Engraçado porque anos depois nós ainda somos os mesmos. Eternos incompletos e mentirosos civilizados. Engraçado.

27 de setembro de 2010

Ela me chamava de Quimera

Parte 4 - Sobre o bilhete que não enviei

Eu dizia para gritar meu nome. Implorava para que gritasse meu nome. Ela sorria e dizia: “Que bobagem é essa agora, Quimera?”. Ela me chamava de Quimera porque não conseguia pronunciar meu nome. Quimera era para quem ela cozinhava doces se sentindo bonita vestindo o avental que ganhara da tia. Quimera era o homem que a segurava forte e a apresentava aos amigos que também eram cúmplices. Quimera era uma farsa que ela podia morder. Quimera era o homem que abria a porta do banheiro para fazê-la gargalhar no chuveiro. Quimera era mais uma criação dela e por isso não havia decepção. Porque quando era eu, não era Quimera e porque quando era Quimera não era eu. Nós a fizemos feliz até ela cansar e criar outra coisa. Hoje disseram que ela arranjou alguém. Ouviram boatos de que ela o chama de Sonho. E eu se pudesse mandaria um bilhete ao pobre coitado: “Meu caro, peça encarecidamente para que ela o chame de Realidade”.

13 de setembro de 2010

Ela me chamava de Quimera

Parte 3 - Sobre os sapatos vermelhos

Eu lembro daqueles tempos que resolvi estudar antropologia e meu ceticismo me impedia de não viver o básico. Lembro que queria ser escritor para retratar o que era banal, carnal, o que a gente realmente vivia. Lembro que ela me abraçava as costas enquanto me roubava as palavras e dizia que eu era bruto porque não a escolhia prontamente. Eu realmente demorava a cogitar a possibilidade de largar os versos para satisfazê-la. Queria que ela pudesse entender que eu precisava daquilo para ser um homem mais interessante. A realidade tomava a ponta da minha caneta e eu poderia pagar seus sapatos caso a editora apostasse em minha melancolia fingida. O problema é que eu era um homem feliz. Ela dizia que apesar do bom humor eu via problema onde não existia, que respeitava demais a poesia e que eu a amava porque precisava depositar meu amor em outro corpo. Ela dizia que na verdade eu era um egoísta porque no fundo esse amor era todo para mim. Lembro da minha vontade de esganar e abraçar aquela infeliz em um aperto só. Mas aí pensava que estava ferindo a mim mesmo e resolvia comprar a droga do par de sapatos com dinheiro emprestado.

Ela me chamava de Quimera

Parte 2 - Sobre a nossa vida

Ela dizia que meu ciúme era bobo e que minhas manias eram feias. Eu tinha ciúmes dela porque não era difícil lhe roubar atenção. Eu sentia prazer em desdenhar seus olhares, mas sabia que ninguém mais deveria fazê-lo. Talvez eu quisesse que seus olhos de criança tivessem mais alma do que realmente tinham, eram tão sinceros que acabavam pesando as minhas intenções. Eu não queria entrar em seus jogos de utopia, só a imaginava andando de meias pela casa posando para mim à frente da cortina que escolheu a dedo na loja. Lembro da cortina ter flores e ela usava um termo “kitsch” como quem sabia que o fazia. Era sabida ou fingia. E eu pensava que só precisava aprender a tocar o maldito samba de que ela tanto falava. Eu não entendia quando ela dizia que naquelas noites que eu me ausentava minha voz não fazia falta. Ela não queria ouvir minhas piadas desprezíveis. Ela só queria que eu estivesse por perto fazendo barulho de xícaras pela casa, de descarga, de televisão ligada no canal de esportes. Ela só queria saber que eu estava acordado, como se isso fosse fazer grande diferença. Ainda tento lembrar do dia em que eu não dormi antes dela.

12 de setembro de 2010

Ela me chamava de Quimera

Parte 1 - Sobre a minha preguiça

Ela dizia que eu tinha mistérios. Lembro disso e rio. Um homem como eu, tão perdido, teria preguiça até mesmo de fazer rodeios. Um homem como eu, que escuta blues e recita Manuel Bandeira, não poderia ser tão enigmático. Acredito que eu a mantinha por perto porque ela realmente acreditava que por detrás da minha simplicidade existia algo mais. Pobrezinha. Ela acordava e falava tanto que mal conseguia acompanhar seu ritmo. Era rítmica, na maioria do tempo. Trazia uma inquietação que me dava certo tédio do que ainda deveria ser feito, eu realmente achava que nada deveria ser feito. Por vezes hesitei em calar-lhe a boca afirmando que o mundo estava em boas mãos e que a nova política não alteraria os nossos dias. Mas fingia prestar atenção. Fechava os olhos e resgatava a mim mesmo daquele mundo criado por ela. Vai ver eu não queria nada criado. Queria usado, rasgado, maltrapilho. Procurava outras que fossem mais simples de gênero e acabava voltando com sorriso amarelo e estômago vazio. Ela me chamava de Quimera e até hoje penso no significado disso. Ainda tento lembrar se eu a chamava de algo.

eu falo insatisfeitismo

É porque as vezes fico pensando se seria melhor usar “pra” ou “para”. Não que “pra” esteja errado e não que “para” seja pomposo. Deveria existir um meio termo entre “pra” e “para”. Eu queria usar “pra” pra ser mais moderninha, tenho achado mais conveniente. Então, penso que “para” para poesia fica mais bonito. Deveria existir um meio termo entre língua coloquial e culta. A língua que eu inventasse pra/para ser o que sou. Meio popular e meio letrada. Uma completa insatisfeita.

6 de setembro de 2010

si doux comme un petit-four

Uma surpresa. Um último cigarro encontrado na bolsa sem uso. Uma música francesa bem melosa para aprender o refrão. Um céu azul-céu depois de uma semana de chuva. Um elogio. Uma cerveja gelada com amigos de coração quente. Uma tarde de feriado para usar chinelo com meia. Uma revista para decorar o apartamento de longe que nem existe. Um bolo com nome de Saúde. Uma planta com nome de Felicidade. Para a vida ser doce, em embalagens de petit poa, em tons de rosa e marrom clarinho. Taí, uma embalagem para cada tipo de vida. Se não existe, algum designer poderia inventar.

31 de agosto de 2010

o som do dia chuvoso

Quando a gente fica ausente, existe um lugar onde possa deixar o coração como um cabide de casacos? Taí, um cabide para pendurar o coração. Depois a gente volta, tira o pó e veste de novo. Quando a gente vai para festa, existe um lugar onde possa deixar o coração como em uma chapelaria? Taí, uma chapelaria para guardar corações. No fim a gente volta, entrega a senha e veste de novo. Quando a gente se sente triste, existe um lugar onde possa alugar corações como em uma locadora de filmes? Taí, uma locadora de corações. Quando cansar do novo a gente devolve, paga o aluguel e veste o velho. Se não, algum artista poderia inventar.


Ao som de:




18 de agosto de 2010

sobre o ombro inimigo

E ele respondeu: "O amor é lindo, Pequena. As pessoas é que são cruéis."