10 de maio de 2012

"a explosão se espalha em coisas que a cidade sonha"



Vi uma notícia hoje que me fez sentir algumas saudades. Não que a notícia costure muito as saudades, mas em tempos de distância qualquer motivo é motivo. Lembrei que quando era criança decorei uma frase do Martín Fierro que dizia "Los hermanos sean unidos porque esa es la ley primera". Lembrei que na casa do meu avô tinham coisas do Martín Fierro e eu, cara de pau, nunca procurei saber mais sobre o personagem. Lembrei que na escola li "A estética do frio" e acabei me conhecendo mais. Lembrei que lá nós éramos bobos, mas um colega, já esperto, levava o violão pra aula e cantava "E tudo isso foi no mês que vem... Foi quando eu chegar...". A gente se emocionava e nem sabia. Lembrei que todos contavam dos planos, discursavam sobre onde fariam a sua vida, ninguém assumia que era possível sonhar em ficar ali. Mal sabíamos nós que distante sentiríamos tanto amor por aquele lugar. Lembrei do frio das madrugadas e de como a "Casa do Joquim" se tornava um oasis cheio de vinho pra nos aquecer e a gente ria... ria... naquele sofá vermelho. E, era vermelho? Lembro de ser vermelho. Lembrei do sentimento de que a rua era nossa e que tempo depois todos voltavam a bater queixo na esquina da Alberto Rosa com a Conde de Porto Alegre. Lembrei que tá pra nascer esquina mais fria e mais quente que aquela. Lembrei que se eu escutar Vitor Ramil vou lembrar dos meus amigos. Lembrei que toda noite eu lembro que queria eles por perto. 


A notícia:


9 de maio de 2012

dos planos

- E se a gente alugasse uma casa? A gente podia alugar uma casa pra poder chamar todos os amigos pra serem felizes lá dentro. A gente podia colocar uma placa na porta dizendo COMO QUIERES QUE TE QUIERA? e ter potes escrito SONHO pra todo mundo colocar bilhetes dentro e daí a gente podia tentar realizar uns.

- Topo. Mas, o banheiro precisa ser bem grande.

- Hein?

- Eu vivo pra um dia ter um banheiro grande e poder cantar assim:



7 de maio de 2012

pra depois ou "onde vão, eu não sei"


Tentei ir ao super, tentei colocar água nas flores, tentei. Tentei café, tentei tirar uma coisa de um lugar pra colocar em outro. Tentei dormir, tentei arrumar a casa, tentei sentar na janela, tentei. Tentei ligar a TV, tentei desligar, tentei o cd da Nina, tentei escrever, tentei rabiscar, tentei. Tentei colocar um quadro na parede, tentei ler a revista, tentei tomar banho. Tentei levar o lixo pra rua, tentei jogar conversa fora com o vizinho, tentei verificar as correspondências. Tudo isso pra deixar pra depois tentar mudar de ideia. 

aos amigos


Para eternizar a piada interna.  

3 de maio de 2012

moça, vê mais um tinto


Tinha um amigo colombiano amigo dos meus amigos e tinha eu feliz em uma festa boa. Claro que ele viraria meu amigo e claro que eu falaria para ele a filosofia do ganas. O brasileiro se gaba que tem a palavra "saudade", mas mal sabe ele da lindeza do ganas. E, eu disse: - Colômbia, diz aí uma tradução plausível para ganas em português. O Colômbia tentou explicar em umas oito frases o que poderia ser a sensação de ganas. Não é nem a nossa gana (s.f. grande vontade ou apetite para qualquer coisa) porque é específico, nem desejo, nem paixão (a palavra paixão é muito feia, por sinal), nem nada disso que parece vender fácil. É outra coisa. Alguma coisa que eu e meus amigos não conseguimos especificar nem tomando tinto as oito da manhã. Vai ver ganas é isso. Vai ver sentir ganas é uma tormenta boa e libertária dentro de uma palavra. Talvez seja um significado para uma vontade tão grande que só poderia ficar dentro de uma palavra que pode dizer muita coisa. Assim, cada um tem uma folha de papel em branco para desenhar o sentimento do outro. "Ou não".
Melhor assim, que tomemos muitos tintos em busca de respostas. 

23 de abril de 2012

congelados

(Versão da música linda do Caê, com o novo xodó musical)

Perguntei pra ele o que tinha acontecido com a poesia do nosso dia-a-dia e qual era o motivo de me sentir participante de uma maratona. Ele respondeu que não era só aqui. Que o fenômeno da falta dela acontecia em mais de um lugar. Disse pra eu cuidar da minha como quem diz: "Vê se te alimenta!'. "Vê se te alimenta e cuida da tua poesia". E eu pensei que seria bom se desse pra comprar na seção de congelados.

16 de abril de 2012

cultura do inquilino




Algumas coisas têm o poder de mexer com a gente. Quando isso acontece geralmente fico em silêncio por alguns minutos. Depois falo. E muito. Mas, de início, fico calada. Numa forma de deixar "essa coisa que têm o poder de mexer comigo" se acalmar e ficar. Acho que é um jeito de congelar "essa coisa". Esse final de semana foi um apanhado dessas sensações. O choque com a exposição do Bispo, a vista da cidade duas vezes (a chuva no Santo de Casa, a noite com os prédios de purpurina), o Medianeras. Nos picos de silêncio lembrei dos meus pensamentos sobre cidade, amor, pessoas e a relação entre isso tudo. Pensei muito nisso no domingo, mas falei (sem pensar) foi no sábado. Senti vontade de escrever pra amiga distante pra jogar conversa fora. Acho que todas as outras pessoas do mundo não tem muita paciência pra esse exercício (começam a olhar o celular, a verificar o e-mail...). Jogar conversa fora é o esporte que eu tenho praticado no momento. Falar sobre cidade, amor, pessoas e a minha relação com isso tudo, é a minha categoria. "Como é que eu devo fazer um muro no fundo da minha casa", "Como vou achar quem eu procuro se não sei quem é?", "Como tu tá?". Como algumas coisas têm o poder de mexer com a gente. Que bom que elas ainda existem.


9 de abril de 2012

indestrutível

Achei na carteira um bilhete que dizia: "Somos uma dupla indestrutível". Fiquei cantarolando: "Você me falou pra eu não me preocupar".
Alguém algum dia me disse que o tempo curava tudo. Comecei a desacreditar. O tempo só nos deixa menos jovens e mais preguiçosos. A gente não esquece. A gente fica com preguiça de sofrer.
O tempo não cura. O tempo nos leva.

5 de abril de 2012

la mejor


E minha melhor amiga... deu o fora. Juntou suas coisas, colocou a vida em malas, comprou uma passagem de ônibus e deu o fora. Deu o fora da cidade onde a gente nasceu, cresceu, curtiu, viveu, se estabacou, sarou. Onde a gente foi inconsequente, delirante, irresponsável, criança e adolescente. Minha melhor amiga deu o fora. Resolveu que ia estudar espanhol, que diria "por que me miras si no me sacas a bailar?" com prioridade. Minha melhor amiga deu o fora do trabalho e foi embora pra Buenos Aires. Resolveu que ia beber Quilmes até cair no chão. Minha melhor amiga deu o fora para crescer, curtir, viver, ser inconsequente, delirante, irresponsável e adulta, em Buenos Aires. Minha melhor amiga foi encantar aquela cidade, foi gargalhar, foi se soltar, foi ser mulher, foi ser feliz. Minha melhor amiga deu o fora de tudo aquilo que já não a fazia estremecer, vibrar, corar. Minha melhor amiga foi corar com gosto de vinho tinto, com homens de cabelo comprido, com casas coloridas, com uma cozinha quente pra chamar de sua. Minha melhor amiga deu o fora. Acho que nunca senti tanto orgulho dela como hoje.

20 de março de 2012

Porre às mulheres perfeitas 2.0


Hoje em meio a um Clube da Luluzinha me peguei defendendo as mulheres comuns. Parece balela, mas nesses novos tempos existe uma nova categoria de mulher: a mulher perfeita 2.0. Não é aquela antiga mulher perfeita que era linda, cozinhava, limpava a casa, cuidava dos filhos e fingia para as amigas que era boa de cama. Não. A mulher perfeita 2.0 faz tudo isso, trabalha, vai nos melhores restaurantes, faz pilates, viaja pela Europa, fala três línguas e usa batom vermelho. Além disso, ela sempre aparece ao lado de amigos bonitos, porque as mulheres perfeitas 2.0 não atraem muitas pessoas feias. E mais, ela tira fotos disso tudo. Ela publica e joga na cara de todas nós, mulheres comuns, que temos celulite, barriguinha e somos falidas. Na minha defesa às mulheres comuns aleguei: e quando a mulher perfeita 2.0 toma um pé na bunda? Ela publica?
Me disseram que pega mal. Que geralmente ela passa a trabalhar mais, ir a restaurantes mais caros (que tenham uma iluminação melhor para as fotos), atrai mais amigos bonitos (e chatos) e passa a tirar mais fotos. Pensei que deve dar um certo trabalho. As mulheres perfeitas do tempo da minha mãe só precisavam de um bom livro de receitas herdado da vó, uma boa genética e sorte (de encontrar um bobo que goste de perfeição). Hoje em dia deve ser meio triste não poder sofrer, não poder chorar, não poder ficar em casa de chinelo e meia, não poder se atrasar de manhã e esquecer a maquiagem (aliás, deve ser um saco usar maquiagem todo dia), não poder conversar com mulheres comuns sobre as promoções da Marisa (quer coisa melhor do que comprar na Marisa? conversar com as atendentes? na Zara as atendentes são sempre tão mal-comidas).
Ser uma mulher perfeita 2.0 dá muito trabalho. Acho que é por isso que eu defendo, sempre, as mulheres comuns. Mulheres que tem aquele jogo de cintura de encarar os perrengues do dia-a-dia, que andam de ônibus lotado, que vão a festas e não levam o celular, que tomam porres sem ninguém saber, que confessam aos amigos que o dinheiro terminou antes do mês e que, principalmente, sabem que seus defeitos têm mais bossa que as perfeições das mulheres perfeitas 2.0. Perfeição incomoda porque se melhorar estraga. Uma mulher comum é linda porque ela sempre pode surpreender, pode falar daquele livro que leu e não publicou sobre, pode contar sobre aquele estilo de música que gosta e ninguém sonha.
Disseram que eu to ralé. Daí eu não quis sair na foto.

16 de março de 2012

fueguitos



Esperando a Ju acabei me lembrando que ontem foi aniversário da Mafalda, não sei porque acabei pensando no Galeano e acabei recordando esse texto incrível e acabei exorcizando isso. Daqui:

Un hombre del pueblo de Neguá, en la costa de Colombia, pudo subir al alto cielo.

A la vuelta, contó. Dijo que había contemplado, desde allá arriba, la vida humana. Y dijo que somos un mar de fueguitos.

—El mundo es eso —reveló—. Un montón de gente, un mar de fueguitos.

Cada persona brilla con luz propia entre todas las demás.

No hay dos fuegos iguales. Hay fuegos grandes y fuegos chicos y fuegos de todos los colores. Hay gente de fuego sereno, que ni se entera del viento, y gente de fuego loco, que llena el aire de chispas. Algunos fuegos, fuegos bobos, no alumbran ni queman; pero otros arden la vida con tantas ganas que no se puede mirarlos sin parpadear, y quien se acerca, se enciende.

14 de março de 2012

cores





E aí eu estava indo trabalhar e topei com "cores de Frida Kahlo, cores".

aos amigos




ao telefone


Cada dia na casa nova é um novo dia pra pensar na casa e nos dias. Também tenho pensado muito sobre cidade, cidade é uma coisa louca né? E tenho pensando também em sorriso, planta, quadro, flor e verde cor de menta. Acho que tô amando verde cor de menta. Acho que tô amando a mesa do café da esquina, queria ela pra mim e aí eu teria uma mesa de jantar, só que com cara de café. Mal sobra tempo pra pensar em outra coisa que não seja cotidianamente encantadora. Acho que tô meio simplória, meio que andando e olhando pra cima. É tanta cor no bairro novo que fico querendo colocar todas elas dentro da casa nova pra cada dia na casa nova ser um dia cotidianamente encantador. Por isso eu fico cuidando quando alguém coloca alguma coisa no lixo grande que tem em frente a uma obra na minha rua. Vai que dá pra fazer alguma coisa legal. Meu pai disse que a minha casa vai virar um ferro velho. Só que colorido. Acho que eu vou começar a pintar. De novo.

13 de março de 2012

"A medida do tempo"

Entediada fui andar pela casa (que agora virou “casa dos meus pais”) e acabei achando um livro escrito por uma tia distante. Já criei tantas lembranças erradas dos meus tios que tive que me esforçar para associar o nome a pessoa. Lembrei das idas a Bagé e de cumprimentar tanta gente. Lembrei que das vezes que estávamos por lá imaginava com seria se meu avô fosse vivo, se ainda tivesse o bar no Jóquei Clube, lembrei da minha vontade de ver meu pai menino e dentuço entre os apostadores. Lembrei que quando era criança eu e uma prima passamos a madrugada acordadas só pelo prazer de fazê-lo (e também para ouvir os adultos conversando e jogando truco). Lembrei que, antes do dia amanhecer, os senhores sentavam na frente de suas casas com mate em punho. Lembrei que nós olhávamos pela janela, que tinha cerração, que minha prima dizia que eles sempre faziam isso e que logo outro senhor também já iria acordar. Minha prima deve estar uma mulher e os senhores que sentavam lá devem estar muito velhinhos. Lembrei da casa da Hulha e que das vezes que fui lá não conseguir dormir. Era uma casa antiga e com tanta história para contar que eu não poderia dormir lá. Lembrei que o chão da casa fazia barulho sozinho e que o barulho se misturava com o da lenha queimando. Lembrei que a maioria dos meus tios por parte de pai tem cara de fumante (mesmo que muitos tenham parado) e por isso eles parecem mais cultos. Lembrei do frio que faz por aquelas bandas. Lembrei e senti saudades. Saudades de quem eu nem sei e nem convivi. Acho que senti saudades por eles. Pelos meus tios e pelos tios dos meus tios. Saudades porque as coisas que faziam parte da vida deles se tornaram apenas lembranças para mim. Senti saudades porque a vida muda. Senti saudades porque a vida passa.

“Sei hoje que o tempo não espera e que a vida nos faz cansar de esperar...”
Glêde Loguercio de Mesquita (do livro achado)

domingo

Vou ficar aqui quietinha. Janela fechada. Tv desligada. Eu aqui quietinha. Tão quietinha que nem na cozinha eu vou ir pra buscar água. Nem vou ouvir aquele disco do Caê que me acalma. Hoje é o dia internacional de não fazer nada. É o dia internacional de ser estátua. Alguém vai acabar ligando ou apitando. O vizinho logo vai começar a tocar flauta. O lixeiros logo passam fazendo furdunço. Como podem? Que me desculpem todos. Hoje eu vou ficar aqui quietinha. Hoje eu vou comemorar o dia internacional de ser estátua.

6 de março de 2012

dos presentes




Eu sei que tenho sorte de conviver com um monte de gente bonita que faz coisas bonitas. Mas, tem dias que essa sorte se acentua. Ontem foi um deles.
Um presente lindo com a cara da nossa história, pra amar e guardar "até o fim raiar".

5 de março de 2012

metade malandro, metade amélia

Tenho ficado tanto tempo comigo mesma que estou passando por uma crise no relacionamento. Acho que eu e eu mesma estamos precisando de uma DR daquelas bem longas, com direito a grito, choro, manha e jantar de reconciliação. Tenho ficado tanto tempo comigo mesma que ando precisando de outras vozes no ambiente para distrair a minha, outros passos na casa, outro que abre a geladeira. Estou me traindo. Mas, acabo voltando, acabo fazendo as pazes comigo mesma, acabo ficando serena, acabo aprendendo a gostar de ficar no silêncio. Acho que virei um malandro. E acabei virando uma Amélia de mim mesma.

4 de março de 2012

sobre o meu pai

- Pai, se arruma, a gente vai sair.
- Onde vamos?
- Tomar uma cerveja na Cidade Baixa.
.
.
- E tu quer que eu me arrume?
- Sim Pai, eu quero.
- Pra ir ver os mesmos estilinhos da feira ecológica que tu me levou?
- Pai.
.
.
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- Quando o senhor era guri e morava aqui em Porto Alegre a Cidade Baixa não era um lugar legal pra se tomar cerveja?
- Era, mas na época eu era baixo também.
.
.
.
- O senhor devia ser um magrão bem no estilinho da feira ecológica.
- Eu era baixo. Mas, nunca comprei pimentão podre.
- Pô Pai, achei que tinha gostado do passeio.
- Eu gostei minha filha, foi bem exótico.
.
.
.
- Tá, vamos.
- Eu vou assim.
- Sim Pai, eu já sabia.

do amor












Imagens de um final de semana de coração cheio. Acho que eu não conseguiria escrever nada.



1 de março de 2012

447



Fugida rápida da pauta para dar parabéns. Acho que o Rio é mais bonito por causa do Vinicius.

pequenos encantamentos

Tulipa Ruiz- SUSHI Clip Oficial from rival+tarde on Vimeo.


''Querido, é mais fácil vivermos solteiros
Em festas confusões
Querido, é mais lindo juntarmos dinheiro
E embarcarmos pro Japão''

A Tulipa em um clipe lindo da Leandra Leal. O encantamento do dia. Acho que eu não queria compartilhar em nenhum outro lugar que não fosse aqui.

sobre o domingo






Enfim, as minhas alpargatinhas e a Karine, um achado Bageense.

23 de fevereiro de 2012

toda forma de amor



Acabei de me apaixonar. Queria dividir.
O filme da vez é ''Toda forma de amor''.
Daqueles que repensam a vida pela gente.
Lindo e só.

22 de fevereiro de 2012

da minha vista


Fico muito na janela e, por vezes, acabo presenciando cenas que dão vontade de descrever aos amigos. Hoje na rua passava um pai, de caminhar lento e olhar sério, do tipo de homem mal-humorado difícil de amolecer. Ele segurava embaixo do braço um jornal e cuidava com atenção as duas filhas que corriam cerca de dez metros e voltavam até a área de segurança em que ele as mantinha, com o olhar, em um silencioso cuidado de pai brabo. A menor, com cerca de três anos, queria sempre correr até longe. E voltava. E corria de novo. A cada nova disparada ela avançava mais ainda e o pai brabo quase a perdia de vista. E eu, na janela, fiquei com medo. Olhava a cena apreensiva. E agora? E se ela corresse para longe do pai brabo? E se ele, realmente, ficasse brabo? E se ele franzisse a testa? E se ele a xingasse? E ela corria. E voltava. E sorria a ele. Sem medo. A menininha me fez ver que desaprendi a lidar com gente braba, que explode, que franze a testa, que nos mantém em uma área de segurança em que a gente não pode colocar a ponta do pé pra fora, que não deixa a gente correr pra onde quer. Ela não tinha medo e me fez ver que tenho, que eu, se não estivesse na janela ansiosa, estaria ao lado dele, caminhando devagar, tentando manter as coisas sob controle. Descobri que o que eu tenho não é apenas o medo da cara fechada, de silêncio e da testa franzida. O que eu tenho é medo de gente que me faz sentir aquela sensaçãozinha de que, a qualquer momento, eu posso pisar na bolsa. E que, se eu pisar na bola, algo muito ruim vai me acontecer. Acho que nunca soube lidar com isso. Acho que nunca soube lidar com essa vida de ameaça em que as pessoas se adaptam. Da janela, quis encorajar a menininha a correr pra bem longe dali. Pra longe de todo mundo que a olhasse feio quando sentisse vontade de correr e que não olhasse pra trás. Mas, ela sumiu da minha vista.

4 de fevereiro de 2012

rue de mes souvenirs







Quem não vê a poesia toda é meio cego.

"Errant dans les rues de mes souvenirs
Je vais suivant le chemin de l´instinct
Tout droit vers l´avenue de mon destin"

3 de fevereiro de 2012

Pra seguir sonhando



Há um ano atrás eu ouvia essa música no avião. Com ela eu planejei começar a tocar acordeon, colocar um vestido branco no corpo bronzeado, largar tudo e subir no altar. Hoje resolvi ouvir de novo. E dos planos, o mais perto me parece o acordeon.

25 de janeiro de 2012

E logo tudo fica bem

Deixa pra depois
O que já não precisa esperar
E tudo que não deu pra consertar
Por culpa do depois
Não tem jeito não
A gente sempre espera piorar
a gente sempre deixa de cuidar
do que já tem na mão
Mas é sem querer
Sem querer
Então, taí
nosso refrão
Taí
Deixa pra depois
O que já não precisa mais deixar
Mudando as mesmas coisas de lugar
A certa coisa certa a se fazer
E diz que só queria descansar
De quem a gente mesmo escolheu ser
sem querer
É sempre sem querer
Então, taí
nosso refrão
Taí
(Cicero)

Vinte e cinco folhas escritas, cinco dias de lágrimas ininterruptas, quinze maços de cigarro, dez músicas que deixam de tocar, um analista.
E logo tudo fica bem.

23 de janeiro de 2012

22 de janeiro de 2012

Olha só

Ela acordou antes, olhou a fresta da janela que lhe parecia a única entrada de ar e se perguntou se a idade lhe fizera deixar de sentir tanto sono pela manhã. Buscou um papel, uma caneta e uma explicação. O lençol amassado cobria parte da âncora que ele traz na pele, que em meio a um único fio de sol, brilhara. Ela respirara pouco nos últimos dias, com certo medo de que o ar acabasse. Uma precaução vestida de medo, uma dúvida do que passa pela cabeça dele. Ninguém sabe, pois dormindo fica manso, feito uma criança sem preocupações. Parece que ele nunca teve medo de respirar. Parece que o ar dali foi feito para ele e eles teriam que aprender a dividi-lo. No silêncio da manhã foi escrito no papelzinho: E agora? Tudo permaneceu em silêncio. E ela voltou a dormir.