31 de dezembro de 2010

falar sobre o ano novo, CHECK

Escrever feliz já é meio complicado – tirando as mocinhas de filmes escrevendo colunas que irão mudar o rumo da história, não conheço ninguém que escreva sorrindo -. Escrever agradecimentos é mais complicado ainda. A gente sabe o que fazer quando tudo dá errado,a gente chora, quebra coisas, fala mal de meio mundo. E quando tudo dá certo? O que a gente faz?Só agradece?
Hoje é o último dia do ano. O ano do “Bota pra fazer”, como se existisse uma lista mental: “Esse ano preciso dar jeito nas coisas da faculdade... CHECK... Preciso viajar...CHECK...Preciso disso... CHECK...CHECK, CHECK”. E os “check” foram surgindo um a um, riscando a minha listinha, abrindo um sorriso bem grande e transformando as vontades em fatos. Todos os projetos, metas, (e até quilos que deveriam ser perdidos), tudo apareceu em sua hora, tudo foi acontecendo e me transformando em uma pessoa menos reclamona.
Ao final eu deveria “agradecer a minha família, ao meu amor, aos meus amigos que sempre me apoiaram e ao blogspot pela oportunidade”. Mas me dei conta de que também deveria agradecer a mim, e me dei conta de que me permitir ser uma pessoa feliz já é o maior dos agradecimentos.
Não vou desejar dinheiro, felicidade, nem “tudo de bom” a quem gosto. Vou desejar um ano recheado de pequenas satisfações, sejam elas quais forem. Não existe no mundo nada melhor do que se sentir vivo para desejar, talvez conseguir realizar e sempre voltar ao ponto de partida.
Um feliz ano-novo e três colheres de lentilha!

cafuné por café

Quem diz que amor é troca não ajuíza muito bem. Ora “amor é troca”. Trocar a gente troca presentes no amigo secreto da empresa, troca figurinha da copa, troca mensagem com as amigas, troca um “tudo bem?” com o vizinho, troca uma ajuda com o irmão. Ninguém troca amor porque não existe escambo, seria muito injusto. Se assim fosse, homens como Saramago, Chico e Vinícius nunca encontrariam mulheres para amar. “Então, se eu te fizer uma música, tu vens com uma sobremesa a altura, combinado?”. Amor foi feito para ser do outro, nunca nosso, se fosse nosso era auto-estima. Amor foi feito para ir embora, nas cartas, nos carinhos, nos beijinhos, nos bilhetinhos. O amor que fica é triste, amargurado, só. Quem diz que amor é troca me parece muito egoísta. Quem diz que amor é troca não conheceu o bom do amor, não acordou antes, não comprou presentes fora da data marcada. Quem diz que amor é troca nunca se deu conta de que quem ama de verdade só se importa com o amar, e que todo o resto que vier é lucro, nunca troco.

16 de dezembro de 2010

par de asas

Não podia deixar de colocar aqui. Qualquer semelhança não é coincidência.

4 de dezembro de 2010

vou ficar com esse!

Todo branco, com alguns móveis de madeira bem clarinha, e vários livros com mais de 300 páginas para decorá-los. Gaiolas cor de rosa sem passarinhos perto da janela e almofadas com estampa de florzinha miudinha no sofá que é herança da avó. Um quadro do Che Guevara, um montão de discos do Chico, uns desenhos de modelo vivo da faculdade presos com alfinete que sempre voam quando bate um vento. Panelas fofinhas da nova linha da Tramontina, que nem dá vontade de cozinhar. Os vinhos – que não faltam - ficam no armário em cima da mesa de almoçar, que encostada na parede perde dois lugares, mas que em dia de festa fica no meio de tudo. Sempre um amigo e outro que passam e voltam. Uma luzinha de abajur antes de dormir. Uma camiseta e um par de meias que corre até a geladeira cheia - de imãs - no meio da noite. Duas cadeiras na sacada, um cinzeiro no chão e dois pés para cima. Um barulho de carro que passa lá embaixo e vai embora. Tlin-tlon, uma visita que traga poesia.

Aluga-se.

assim, mal passado?

Existem dias ruins e pessoas assado. Daí a gente se preocupa tanto que esquece daquele cd da Karina Buhr. Lembrei e coloquei pra tocar. E os males viraram só um momento em que as pessoas assim, interpretaram mal.

29 de novembro de 2010

afável gesto de ser inesquecível


Eu devia ter uns cinco anos quando minha mãe – que sempre foi de muitos admiradores e amigos – fez uma amiga russa. Lembro dela ser ruiva de doer e - na minha feliz ignorância- seu português era uma gracinha. Um dia minha mãe apareceu em casa com uma Matrioska que havia ganhado de presente dela. Lembro da minha mãe abrindo bonequinha por bonequinha, dispondo-as na mesa uma a uma, e eu com olhos de admiração, ouvia a lenta explicação sobre família e como aquilo era muito bonito. O que pode parecer um afável gesto de carinho da amiga, da minha mãe, do homenzinho russo que inventou as bonequinhas, para mim até hoje representa muito mais. Representa uma infância e vida com filosofias diferentes sobre aquele presente. Ainda não sei bem. Mas, acredito que toda mulher é um renascimento de suas gerações. Das bisavós, das avós, das mães. Remodela a saia, busca aquele sapato que fica um tantinho apertado, aquele echarpe que voltou a moda, aquele anel que ficou de herança. Nós somos quem elas eram antes, só que com outras chances e com conselhos que não vamos ouvir nunca. Nós somos elas customizadas, com lavagem anos 2000. E quando antes eu observava aquelas bonequinhas e dizia “Olha, essa pequeninha aqui sou eu, mãe!”, hoje penso que sou aquela que abriga as outras. Todas as grandes mulheres da minha vida estão no recheio da minha alma.

sobre as coisas que ele reclama

Ele reclama que eu escrevo coisas tristes, mas mal ele sabe do bem que me faz. Ele reclama que eu reclamo muito, mas mal ele sabe que quem o faz vive mais. E eu vivo muito com ele. Ele reclama sobre as minhas inspirações e mal sabe que eu viveria com ele só pelo fato de ser ilustrador. Nem precisava ser malabarista. Nem cozinheiro. Nem andar de monociclo. Vai ver nem precisava saber de história da arte, nem sobre os touros do Picasso e nem me corrigir quando eu falo do Cezanne. Ele reclama que eu escondo os problemas e reclamo muito. Acontece que ele não combina com coisa que dá errado. Então eu fico quietinha e escrevo sobre as coisas infelizes. Porque com ele eu falo muito. Pena que não falo sobre as coisas que ele reclama.

23 de novembro de 2010

16 de novembro de 2010

até mais tarde

Eu preciso trabalhar amanhã cedo. Eu preciso pagar as contas que me envergonham e preciso juntar dinheiro pra viajar. Eu preciso de férias e preciso de um curso pra elas passarem rápido. Eu preciso dormir no natal e acordar quando passar o carnaval. Não tenho vergonha de dizer que não gosto do Natal. E, como diz o meu pai, a Bahia destruiu o carnaval. Axé é muito ruim - se ainda tocassem marchinhas eu até que acordava antes -. Eu preciso trabalhar amanhã cedo. Eu preciso desligar a música, toca Bebel Gilberto a umas três horas. Eu preciso ficar tranqüila quanto aos planos que fiz pra mim, sozinha, daqueles que a gente faz uma lista e pensa como vai se virar. Mas daí eu reflito que não sei fazer isso. Sempre teve alguém que fizesse pra mim, que me pegasse da mão e dissesse o que fazer, que planos fazer, que lugar escolher (iamos), mesmo que no fim eu sempre sugerisse o que seria mais interessante. Daí que da sugestão fez-se a escolha. Se der errado eu não posso culpar ninguém. Isso sempre foi tão tranqüilizador. E é por isso que eu preciso trabalhar amanhã cedo. Escutar “eu avisei” de mim mesma, me parece humilhante demais.

13 de novembro de 2010

uma tristeza só



Existe um tipo de tristeza quietinha que pode ser muito cruel. Uma tristeza que a gente não divide, não comenta, não conta pro melhor amigo. Ela é assim porque parece bobagem, porque as vezes nossos motivos não são tão relevantes aos olhos dos outros. Ela também é assim porque acreditamos que quem nos conhece de verdade deveria reparar em nossas vontades, anseios, e porque não, nas angústias tímidas. Daí a gente prefere nem falar, fingir que tudo está certo, que quando fica pensativo é “nada”. Assim a gente vai levando, enganando bem a si e aos outros. É por isso que esse tipo de tristeza é tão ruim, porque a gente não divide, porque ninguém diz que “vai passar”, porque ela é só e só da gente.

18 de outubro de 2010

"tô acordada!"

Tudo o que ele faz é bonito. E eu de pouca criatividade rezo para sempre ter uma nova reação a cada encanto. Tudo o que ele faz é bonito. E eu de pouco dom artístico fico pensando como alguém pode alimentar-se de tanto domínio da linguagem poética – e claro, visual -. Tudo o que ele faz é bonito. E eu de pouca memória sinto vontade de filmar seu dia para depois colocar trilha sonora. Tudo o que ele faz é bonito. E eu de pouca esperança sinto medo do dia em que ele não se contente com amor e comida (o que seria uma coisa feia). Tudo o que ele faz é bonito. E eu que sempre fui de muito sono hoje acordei e fiquei pensando nisso.

3 de outubro de 2010

Niilismo

Quando olhei o sol já começava a explicar as árvores da praça bonita da cidade. Tava tudo meio torto, meio embaçado e pela cor do céu já podia dizer: “Bom dia!”. Duas vezes a saudação. A gente ainda não tinha dormido. Aquele dia foi mais longo, mais sujo, mais despedaçado, o dia mais embriagado das nossas vidas. Engraçado porque a lágrima que antes era doce, tinha gosto de álcool e evaporava. Engraçado porque no cordão da calçada a gente reclamou de tudo. Engraçado porque a gente se diz jovem e logo esquece do que reclamou. Engraçado. Engraçado porque a gente sempre disse que ia embora. Engraçado porque a gente fazia planos e hoje eles me parecem tão fora de moda. Engraçado porque anos depois a gente ainda senta no mesmo lugar. Engraçado porque anos depois nós ainda somos os mesmos. Eternos incompletos e mentirosos civilizados. Engraçado.

27 de setembro de 2010

Ela me chamava de Quimera

Parte 4 - Sobre o bilhete que não enviei

Eu dizia para gritar meu nome. Implorava para que gritasse meu nome. Ela sorria e dizia: “Que bobagem é essa agora, Quimera?”. Ela me chamava de Quimera porque não conseguia pronunciar meu nome. Quimera era para quem ela cozinhava doces se sentindo bonita vestindo o avental que ganhara da tia. Quimera era o homem que a segurava forte e a apresentava aos amigos que também eram cúmplices. Quimera era uma farsa que ela podia morder. Quimera era o homem que abria a porta do banheiro para fazê-la gargalhar no chuveiro. Quimera era mais uma criação dela e por isso não havia decepção. Porque quando era eu, não era Quimera e porque quando era Quimera não era eu. Nós a fizemos feliz até ela cansar e criar outra coisa. Hoje disseram que ela arranjou alguém. Ouviram boatos de que ela o chama de Sonho. E eu se pudesse mandaria um bilhete ao pobre coitado: “Meu caro, peça encarecidamente para que ela o chame de Realidade”.

13 de setembro de 2010

Ela me chamava de Quimera

Parte 3 - Sobre os sapatos vermelhos

Eu lembro daqueles tempos que resolvi estudar antropologia e meu ceticismo me impedia de não viver o básico. Lembro que queria ser escritor para retratar o que era banal, carnal, o que a gente realmente vivia. Lembro que ela me abraçava as costas enquanto me roubava as palavras e dizia que eu era bruto porque não a escolhia prontamente. Eu realmente demorava a cogitar a possibilidade de largar os versos para satisfazê-la. Queria que ela pudesse entender que eu precisava daquilo para ser um homem mais interessante. A realidade tomava a ponta da minha caneta e eu poderia pagar seus sapatos caso a editora apostasse em minha melancolia fingida. O problema é que eu era um homem feliz. Ela dizia que apesar do bom humor eu via problema onde não existia, que respeitava demais a poesia e que eu a amava porque precisava depositar meu amor em outro corpo. Ela dizia que na verdade eu era um egoísta porque no fundo esse amor era todo para mim. Lembro da minha vontade de esganar e abraçar aquela infeliz em um aperto só. Mas aí pensava que estava ferindo a mim mesmo e resolvia comprar a droga do par de sapatos com dinheiro emprestado.

Ela me chamava de Quimera

Parte 2 - Sobre a nossa vida

Ela dizia que meu ciúme era bobo e que minhas manias eram feias. Eu tinha ciúmes dela porque não era difícil lhe roubar atenção. Eu sentia prazer em desdenhar seus olhares, mas sabia que ninguém mais deveria fazê-lo. Talvez eu quisesse que seus olhos de criança tivessem mais alma do que realmente tinham, eram tão sinceros que acabavam pesando as minhas intenções. Eu não queria entrar em seus jogos de utopia, só a imaginava andando de meias pela casa posando para mim à frente da cortina que escolheu a dedo na loja. Lembro da cortina ter flores e ela usava um termo “kitsch” como quem sabia que o fazia. Era sabida ou fingia. E eu pensava que só precisava aprender a tocar o maldito samba de que ela tanto falava. Eu não entendia quando ela dizia que naquelas noites que eu me ausentava minha voz não fazia falta. Ela não queria ouvir minhas piadas desprezíveis. Ela só queria que eu estivesse por perto fazendo barulho de xícaras pela casa, de descarga, de televisão ligada no canal de esportes. Ela só queria saber que eu estava acordado, como se isso fosse fazer grande diferença. Ainda tento lembrar do dia em que eu não dormi antes dela.

12 de setembro de 2010

Ela me chamava de Quimera

Parte 1 - Sobre a minha preguiça

Ela dizia que eu tinha mistérios. Lembro disso e rio. Um homem como eu, tão perdido, teria preguiça até mesmo de fazer rodeios. Um homem como eu, que escuta blues e recita Manuel Bandeira, não poderia ser tão enigmático. Acredito que eu a mantinha por perto porque ela realmente acreditava que por detrás da minha simplicidade existia algo mais. Pobrezinha. Ela acordava e falava tanto que mal conseguia acompanhar seu ritmo. Era rítmica, na maioria do tempo. Trazia uma inquietação que me dava certo tédio do que ainda deveria ser feito, eu realmente achava que nada deveria ser feito. Por vezes hesitei em calar-lhe a boca afirmando que o mundo estava em boas mãos e que a nova política não alteraria os nossos dias. Mas fingia prestar atenção. Fechava os olhos e resgatava a mim mesmo daquele mundo criado por ela. Vai ver eu não queria nada criado. Queria usado, rasgado, maltrapilho. Procurava outras que fossem mais simples de gênero e acabava voltando com sorriso amarelo e estômago vazio. Ela me chamava de Quimera e até hoje penso no significado disso. Ainda tento lembrar se eu a chamava de algo.

eu falo insatisfeitismo

É porque as vezes fico pensando se seria melhor usar “pra” ou “para”. Não que “pra” esteja errado e não que “para” seja pomposo. Deveria existir um meio termo entre “pra” e “para”. Eu queria usar “pra” pra ser mais moderninha, tenho achado mais conveniente. Então, penso que “para” para poesia fica mais bonito. Deveria existir um meio termo entre língua coloquial e culta. A língua que eu inventasse pra/para ser o que sou. Meio popular e meio letrada. Uma completa insatisfeita.

6 de setembro de 2010

si doux comme un petit-four

Uma surpresa. Um último cigarro encontrado na bolsa sem uso. Uma música francesa bem melosa para aprender o refrão. Um céu azul-céu depois de uma semana de chuva. Um elogio. Uma cerveja gelada com amigos de coração quente. Uma tarde de feriado para usar chinelo com meia. Uma revista para decorar o apartamento de longe que nem existe. Um bolo com nome de Saúde. Uma planta com nome de Felicidade. Para a vida ser doce, em embalagens de petit poa, em tons de rosa e marrom clarinho. Taí, uma embalagem para cada tipo de vida. Se não existe, algum designer poderia inventar.

31 de agosto de 2010

o som do dia chuvoso

Quando a gente fica ausente, existe um lugar onde possa deixar o coração como um cabide de casacos? Taí, um cabide para pendurar o coração. Depois a gente volta, tira o pó e veste de novo. Quando a gente vai para festa, existe um lugar onde possa deixar o coração como em uma chapelaria? Taí, uma chapelaria para guardar corações. No fim a gente volta, entrega a senha e veste de novo. Quando a gente se sente triste, existe um lugar onde possa alugar corações como em uma locadora de filmes? Taí, uma locadora de corações. Quando cansar do novo a gente devolve, paga o aluguel e veste o velho. Se não, algum artista poderia inventar.


Ao som de:




18 de agosto de 2010

sobre o ombro inimigo

E ele respondeu: "O amor é lindo, Pequena. As pessoas é que são cruéis."

15 de agosto de 2010

diagnóstico

Ontem lembrei que na pré-escola me mandaram pintar um gato. Pintei o corpo verde, manchas em rosa e amarelo, os olhos de laranja e todas as cores que podiam estar lá. Um verdadeiro gato psicodélico, mas bem simpático. Então fui advertida, um verdadeiro escarcéu, chamaram minha mãe, a professora alegou que eu deveria ter algum tipo de “problema”. Quinze anos depois me ocorreu que existe a possibilidade dela estar certa. E isso me pareceu muito bom.


para ouvir no domingo:




13 de agosto de 2010

cá entre os nós


cetim ilustrado por luiz marcel

Te espero chegar porque assim escreveria menos e conversaria mais, sobraria mais papel e menos disposição. Te espero chegar porque acho lindo quando carregas uma mochila que quase tem meu tamanho - e quando chegares quero ver carregar a mim e a ela até o Uruguai ou qualquer lugar onde o Belchior se esconderia. Te espero chegar porque sinto falta do teu arroz, mesmo que eu nem goste tanto assim de arroz. Te espero chegar porque te ver zonzo no corredor dos chocolates, concentrado no corredor da faculdade e fingindo fúria no corredor de casa, são cenas cotidianamente encantadoras. Te espero chegar porque não consegui desatar o nó. Te espero chegar porque é muito melhor te esperar chegar a não te ter por perto e só.

12 de agosto de 2010

caso de morte ou morte

Ela tinha um livro sem nome, um vestido da sorte e um amor impossível. Nunca deu nome ao livro porque se esqueceria dele, nunca usou o vestido porque não encontrou dia especial e o amor impossível morreu de medo. Ou tédio.

9 de agosto de 2010

a menor história do mundo

A menor história do mundo dentro de um livro que coubesse dentro da palma da tua mão. Desde sempre a idéia foi essa. Hoje minha saudade faz dela um jeitinho de te ter por perto. Na sequência:

dedicatória
E só existe uma pessoa no mundo que entenderia a menor história do mundo, “você”.

capítulo 1_toda beira é final de dois

Quando fecha os olhos fica meio sem jeito de perguntar pela enésima vez o que se passa pela cabeça dele. Na verdade, acha que na maioria das vezes nada pensa. Idealiza a resposta: Penso em “você”. Pensamento bom, pensamento ruim, qualquer que seja. Como acontece com ela durante o dia todo. Responde: Nada. E a deixa sossegada. O fato de ser tão tranqüilo manterá o compasso. Faz silêncio por cerca de dois segundos, tempo o bastante para ela prestar atenção na luz que entra pela frestinha da janela e plagia a lua. Ela ainda desconfia que ele foi quem mandou colocá-la ali. Que foi ? Ele pergunta. Nada, ela diz. "Só acho que eu poderia escrever a menor história do mundo sobre a gente".

capítulo dois 2_ela

(Uma história que começa com ela para que ela seja eu, e eu apenas seja a voz que narra a história bonita.)

Café a cada cinco minutos. Disfarça que é para produzir mais, ter mais idéias, sentir-se mais acordada. Mente, o vício é pelo ar saudosista de uma Paris que nunca conheceu e de um inverno que não seja úmido. Perde na banqueta os livros misturados as revistas que escondem as canetas, os óculos e os pedaços de papel onde anota versos. Diz que Camelo é o melhor porque as músicas dele doem, que na teoria de boteco bom mesmo é quem fala mais alto, que acredita em amor, mas que dele quer distância.

capítulo 3_ele

Criou um mundo chamado “Folha em Branco”. É para lá que ele foge quando fica em silêncio por alguns minutos. Transforma o branco em cor, linha e devaneio. Tem sempre um pensamento convertido em arte nos objetos pelo quarto, nas roupas que usa, no cabelo que faz com que as crianças fiquem abismadas. Perde na banqueta as tintas misturadas aos pincéis que escondem as canetas, os óculos e os pedaços de papel onde anota versos. Diz que Amarante é o melhor porque as músicas dele trazem uma história, que bom mesmo é quem discorda, que acredita no amor, mas que não é hora.

capítulo 4_eles

Alguém tinha que dar o primeiro passo. Ela disse: “E então, tem gostado da cidade ?”. A Satolep que para ela parecia tão pacata e pequena tomara novos ares desde a chegada de tantos desconhecidos. Ele disse gostar, com ar de que esperava mais, um pouco mais de tudo. “Pede mais um copo”, “Conta mais como é aquela parte do Rio de Janeiro”, “Acho que você adoraria a Lapa”, “Você ? Que engraçado ouvir você!”. Alguém tinha que dar o segundo passo. Ele surgiu, lento e veemente, um beijo e enfim.

capítulo 5_como convém que seja

Ele canta, toca gaita, faz bolinhos para saborear depois de preparar o jantar. Sente vergonha quando a casa anda suja, quando não consegue chegar no horário. Ele tem um jeitinho manso, como quem não se preocupa a longo prazo, como quem vai viver por mais de cem anos. Traz uma poesia escrita no papel rasgado do caderninho onde desenha, paga um café, passa no supermercado só para matar aquele desejo que ela falou. Ele escuta tudo que ela diz, mesmo que pareça sempre distraído. Ela reclama. Pede atenção. No fundo sabe que ele se dedica, só não o chama de príncipe encantado porque tem um ar vadio. Mas gosta, afinal, assim fica mais charmoso. Ela fala muito e geralmente o atordoa com tantos pedidos e manhas, mas gosta mesmo quando escolhem sempre a opção mais simples para o sábado. Ela escreve um poema em pensamento toda vez que ele mexe nos seus cabelos, vai passando pela orelha, vai chegando ao pescoço e a segura com força, como quem não a deixa escapar por nada. Eles acreditavam no amor, perto, oportuno, (s)enfim.

7 de agosto de 2010

los gritones

Há de se compartilhar tudo que é bom...

2 de agosto de 2010

deixa pra amanhã

A gente deveria ser forte, não ligar para o que os outros falam, não escutar as mazelas daqueles que não querem a gente bem. A gente deveria pensar grande, nos verdadeiros problemas do mundo, na fome, na miséria. A gente deveria ser menos afetuosa, menos idealista, menos egoísta, menos sonhadora. Mas acontece que, no fundo, a gente sabe onde erra. E quando alguém fala em voz alta, parece um verdadeiro chá de consciência. Banho de água fria. A gente não é forte, a gente liga para o que falam, a gente escuta mazela e acredita que um problema nosso é maior que a fome no mundo. E mesmo que isso seja muito feio, ainda não tive iniciativa de mudar tal situação. Amanhã volto a ponderar sobre outros. Hoje vou cuidar do rei da minha barriga.

Maman, je suis cliche

Domingos geralmente são chatos. Trazem uma cara de melancolia que me angústia. Fico rabugenta e na maioria dos planos ofertados não vejo diversão alguma. Hoje foi diferente, dei sorte. Zapeando a TV me deparei com algo que me faria pensar o resto da noite. Eis que o homem inventou o “Telecine Cult”. Então, “Hell Paris 75016” foi um dos melhores livros que já li. Existem alguns que vão além da cabeceira - taí um bom apelido para móvel -, e este foi um deles. Fútil, mas forte, - vai ver é porque era adolescente e com ele aprendi algumas sacanagens -. Quando passei pelo canal, iniciava o filme com o mesmo título. Eu, meu preconceito com versões cinematográficas dos meus livros e ninguém mais, assistimos a maluquice de Lolita Pille em cores. Sou daquelas chatas, critiquei Budapeste, Dom, Benjamin, discuti com quem entendia disso muito mais do que eu. Dessa vez foi diferente. “Hell” é deveras uma obra prima e, me calo. Já era em tempo de dormir e acordar cedo na segunda. E, felizmente, iniciou “Bonecas Russas”. Cheguei à conclusão que, enfim, cinema francês é uma delícia mesmo. Não porque os personagens são mais quentes, nem porque geralmente fumam – e isso faz com que eu me sinta mais aceita pela sociedade -, mas porque hoje fui deveras convencida de que ninguém faz isso melhor que os caras. Dormirei com vontade de largar tudo e escrever romances, comprar uma câmera, estudar fotografia, encantar a vida dos outros. E mesmo que eu saiba que não vai acontecer, é exatamente isso que um filme deve causar: Vontade de desligar a TV e ir viver tudo ao vivo. Pensamento clichê, domingo clichê. Não podia ser melhor!

21 de julho de 2010

literalmente amor

Uma proposta de trabalho, pouco tempo, um problema solucionado. Alegrar o dia dos outros nos pareceu um conceito bem bacana. O final do semestre deixa todos, um tanto quanto, menos racionais, menos criativos, até menos amados. Bilhetinhos achados e perdidos entre tantas palavras soltas, o carinho de um estranho para encantar – ou incomodar – um pouquinho. Um montão de poesia escrita pela gente e espalhadas dentro dos livros da faculdade.









o vídeo da intervenção:

1 de julho de 2010

maldito seja jean-paul

Eu, meu livro de rodoviária e os passantes que mal me percebem aqui. No lugar das partidas ficam sempre as mesmas angústias. Ta meio frio, daqueles que a gente sente hora sim, hora não. O Sartre embaralhou a letra e misturou a mim. A liberdade nonsense de que falava destoou com minha vontade de acordar logo em casa. Eu que tanto levantei essa bandeira me peguei pensando nas vezes que não fiz sentido algum. Já é hora de ir embora. Deixei no velho banco um bilhetinho que dizia: “Et vous êtes libre?”. Me fui. Sentimento de dever cumprido. No lugar das partidas hão de ficar, sempre, as mesmas angústias.

28 de junho de 2010

interlúdio

Acordei meio sem graça. Meio com vontade viajar. Meio com vontade de ficar. Meio assim. Meio nunca é bom. Bom é inteiro. Se não for, que arranque os pedaços, que nada sobre. Melhor que seja ausência. Metade nunca é o bastante. Metade logo termina. Metade da graça. Metade da vontade. De ir, de ficar. Acordei meio assim, meio morna, meio branca, meio no reflexo da janela, meio cigarro, meio projeto escrito. Logo passa. É meio fim. Meio sem nexo. Meio sem cadência. Inteiramente em silêncio.

23 de junho de 2010

severino cadê meu briefing?

Manhã Manha Acorda Treme Aula Reunião Trabalho Prazo estourado Reunião Reunião Relatório “Tá errado” Faz de novo Vê mais um café Briefing Branding I’m cansading Tudo pro altoing Cumpre as horas Pesquisa Ensino Extensão De mim Dorme Acorda E finge que não gosta por mais um dia