
14 de março de 2012
ao telefone

Cada dia na casa nova é um novo dia pra pensar na casa e nos dias. Também tenho pensado muito sobre cidade, cidade é uma coisa louca né? E tenho pensando também em sorriso, planta, quadro, flor e verde cor de menta. Acho que tô amando verde cor de menta. Acho que tô amando a mesa do café da esquina, queria ela pra mim e aí eu teria uma mesa de jantar, só que com cara de café. Mal sobra tempo pra pensar em outra coisa que não seja cotidianamente encantadora. Acho que tô meio simplória, meio que andando e olhando pra cima. É tanta cor no bairro novo que fico querendo colocar todas elas dentro da casa nova pra cada dia na casa nova ser um dia cotidianamente encantador. Por isso eu fico cuidando quando alguém coloca alguma coisa no lixo grande que tem em frente a uma obra na minha rua. Vai que dá pra fazer alguma coisa legal. Meu pai disse que a minha casa vai virar um ferro velho. Só que colorido. Acho que eu vou começar a pintar. De novo.
13 de março de 2012
"A medida do tempo"
Entediada fui andar pela casa (que agora virou “casa dos meus pais”) e acabei achando um livro escrito por uma tia distante. Já criei tantas lembranças erradas dos meus tios que tive que me esforçar para associar o nome a pessoa. Lembrei das idas a Bagé e de cumprimentar tanta gente. Lembrei que das vezes que estávamos por lá imaginava com seria se meu avô fosse vivo, se ainda tivesse o bar no Jóquei Clube, lembrei da minha vontade de ver meu pai menino e dentuço entre os apostadores. Lembrei que quando era criança eu e uma prima passamos a madrugada acordadas só pelo prazer de fazê-lo (e também para ouvir os adultos conversando e jogando truco). Lembrei que, antes do dia amanhecer, os senhores sentavam na frente de suas casas com mate em punho. Lembrei que nós olhávamos pela janela, que tinha cerração, que minha prima dizia que eles sempre faziam isso e que logo outro senhor também já iria acordar. Minha prima deve estar uma mulher e os senhores que sentavam lá devem estar muito velhinhos. Lembrei da casa da Hulha e que das vezes que fui lá não conseguir dormir. Era uma casa antiga e com tanta história para contar que eu não poderia dormir lá. Lembrei que o chão da casa fazia barulho sozinho e que o barulho se misturava com o da lenha queimando. Lembrei que a maioria dos meus tios por parte de pai tem cara de fumante (mesmo que muitos tenham parado) e por isso eles parecem mais cultos. Lembrei do frio que faz por aquelas bandas. Lembrei e senti saudades. Saudades de quem eu nem sei e nem convivi. Acho que senti saudades por eles. Pelos meus tios e pelos tios dos meus tios. Saudades porque as coisas que faziam parte da vida deles se tornaram apenas lembranças para mim. Senti saudades porque a vida muda. Senti saudades porque a vida passa.
“Sei hoje que o tempo não espera e que a vida nos faz cansar de esperar...”
Glêde Loguercio de Mesquita (do livro achado)
domingo
Vou ficar aqui quietinha. Janela fechada. Tv desligada. Eu aqui quietinha. Tão quietinha que nem na cozinha eu vou ir pra buscar água. Nem vou ouvir aquele disco do Caê que me acalma. Hoje é o dia internacional de não fazer nada. É o dia internacional de ser estátua. Alguém vai acabar ligando ou apitando. O vizinho logo vai começar a tocar flauta. O lixeiros logo passam fazendo furdunço. Como podem? Que me desculpem todos. Hoje eu vou ficar aqui quietinha. Hoje eu vou comemorar o dia internacional de ser estátua.
6 de março de 2012
dos presentes
5 de março de 2012
metade malandro, metade amélia
Tenho ficado tanto tempo comigo mesma que estou passando por uma crise no relacionamento. Acho que eu e eu mesma estamos precisando de uma DR daquelas bem longas, com direito a grito, choro, manha e jantar de reconciliação. Tenho ficado tanto tempo comigo mesma que ando precisando de outras vozes no ambiente para distrair a minha, outros passos na casa, outro que abre a geladeira. Estou me traindo. Mas, acabo voltando, acabo fazendo as pazes comigo mesma, acabo ficando serena, acabo aprendendo a gostar de ficar no silêncio. Acho que virei um malandro. E acabei virando uma Amélia de mim mesma.
4 de março de 2012
sobre o meu pai
- Onde vamos?
- Tomar uma cerveja na Cidade Baixa.
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- E tu quer que eu me arrume?
- Sim Pai, eu quero.
- Pra ir ver os mesmos estilinhos da feira ecológica que tu me levou?
- Pai.
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- Quando o senhor era guri e morava aqui em Porto Alegre a Cidade Baixa não era um lugar legal pra se tomar cerveja?
- Era, mas na época eu era baixo também.
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- O senhor devia ser um magrão bem no estilinho da feira ecológica.
- Eu era baixo. Mas, nunca comprei pimentão podre.
- Pô Pai, achei que tinha gostado do passeio.
- Eu gostei minha filha, foi bem exótico.
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- Tá, vamos.
- Eu vou assim.
- Sim Pai, eu já sabia.
1 de março de 2012
pequenos encantamentos
Em festas confusões
Querido, é mais lindo juntarmos dinheiro
E embarcarmos pro Japão''
23 de fevereiro de 2012
toda forma de amor
22 de fevereiro de 2012
da minha vista

Fico muito na janela e, por vezes, acabo presenciando cenas que dão vontade de descrever aos amigos. Hoje na rua passava um pai, de caminhar lento e olhar sério, do tipo de homem mal-humorado difícil de amolecer. Ele segurava embaixo do braço um jornal e cuidava com atenção as duas filhas que corriam cerca de dez metros e voltavam até a área de segurança em que ele as mantinha, com o olhar, em um silencioso cuidado de pai brabo. A menor, com cerca de três anos, queria sempre correr até longe. E voltava. E corria de novo. A cada nova disparada ela avançava mais ainda e o pai brabo quase a perdia de vista. E eu, na janela, fiquei com medo. Olhava a cena apreensiva. E agora? E se ela corresse para longe do pai brabo? E se ele, realmente, ficasse brabo? E se ele franzisse a testa? E se ele a xingasse? E ela corria. E voltava. E sorria a ele. Sem medo. A menininha me fez ver que desaprendi a lidar com gente braba, que explode, que franze a testa, que nos mantém em uma área de segurança em que a gente não pode colocar a ponta do pé pra fora, que não deixa a gente correr pra onde quer. Ela não tinha medo e me fez ver que tenho, que eu, se não estivesse na janela ansiosa, estaria ao lado dele, caminhando devagar, tentando manter as coisas sob controle. Descobri que o que eu tenho não é apenas o medo da cara fechada, de silêncio e da testa franzida. O que eu tenho é medo de gente que me faz sentir aquela sensaçãozinha de que, a qualquer momento, eu posso pisar na bolsa. E que, se eu pisar na bola, algo muito ruim vai me acontecer. Acho que nunca soube lidar com isso. Acho que nunca soube lidar com essa vida de ameaça em que as pessoas se adaptam. Da janela, quis encorajar a menininha a correr pra bem longe dali. Pra longe de todo mundo que a olhasse feio quando sentisse vontade de correr e que não olhasse pra trás. Mas, ela sumiu da minha vista.
4 de fevereiro de 2012
rue de mes souvenirs
3 de fevereiro de 2012
Pra seguir sonhando
25 de janeiro de 2012
E logo tudo fica bem
O que já não precisa esperar
E tudo que não deu pra consertar
Por culpa do depois
Não tem jeito não
A gente sempre espera piorar
a gente sempre deixa de cuidar
do que já tem na mão
Mas é sem querer
Sem querer
Então, taí
nosso refrão
Taí
Deixa pra depois
O que já não precisa mais deixar
Mudando as mesmas coisas de lugar
A certa coisa certa a se fazer
E diz que só queria descansar
De quem a gente mesmo escolheu ser
sem querer
É sempre sem querer
Então, taí
nosso refrão
Taí
23 de janeiro de 2012
22 de janeiro de 2012
Olha só
Ela acordou antes, olhou a fresta da janela que lhe parecia a única entrada de ar e se perguntou se a idade lhe fizera deixar de sentir tanto sono pela manhã. Buscou um papel, uma caneta e uma explicação. O lençol amassado cobria parte da âncora que ele traz na pele, que em meio a um único fio de sol, brilhara. Ela respirara pouco nos últimos dias, com certo medo de que o ar acabasse. Uma precaução vestida de medo, uma dúvida do que passa pela cabeça dele. Ninguém sabe, pois dormindo fica manso, feito uma criança sem preocupações. Parece que ele nunca teve medo de respirar. Parece que o ar dali foi feito para ele e eles teriam que aprender a dividi-lo. No silêncio da manhã foi escrito no papelzinho: E agora? Tudo permaneceu em silêncio. E ela voltou a dormir.
20 de janeiro de 2012
Um jornalista pra se confiar
18 de janeiro de 2012
Perdida
10 de janeiro de 2012
“No fundo, isso tudo é apenas o que o meu olho inventa: Satolep.”
E eu coloquei algumas coisas em caixas e resolvi mudar de cidade. É engraçado porque fui embora para perto e o perto é de um ponto de referência que nunca muda. Pelotas. Pelotas deixou de ser o lugar onde moro para ser o lugar para onde volto. Pelotas passa a ser Satolep, que é mais de quem sente saudade. Engraçado porque o cara aquele disse que Paris não seria Paris se não fosse o imaginário envolto a ela. Eu vim para Porto Alegre porque o imaginário que tenho dela talvez seja mais legal que o resto todo. Acho que to feliz. Meio perto, meio longe. Meio imaginário, meio vida, meio tudo que o meu olho inventa... E eu vou atrás.
12 de dezembro de 2011
das preferências
Eu gosto de prédio antigo, banheiro anos 70, velhinhos na rua. Eu gosto de gente humilde, gosto do centro da cidade, de lugares que ainda deixam as pessoas fumarem. Gosto de casa com cara de que pode bagunçar, de gente que pode bagunçar com a gente, de sofá com rasgadinho escondido pela almofada. Gosto de cor, de amizade com o vizinho, de roupa que cai lá embaixo e tem que buscar, da moça da lavanderia japonesa que não para de falar. Prefiro café batido com nescafé, ficar na lapa do que na zona sul, sidra do que champanhe caro, o Liberdade do que qualquer outro “point”, escrever bem em português do que mal em outras três línguas. Não é romance. Não é merchandising de filme brasileiro. Não é saudosismo. Não é riponguice. É escolher as coisas simples porque são mais legais. É preferir as pessoas simples porque elas são, na maioria das vezes, muito mais legais do que as coisas, os “points” e todo o resto. E, se tudo isso está fora de moda (e casa bonita tem cara de escritório), eu estou pra lá de “out”, meu bem.
9 de novembro de 2011
À toa, a boa
Andando pelo centro me dei conta de que ainda não tinha prestigiado a Feira do Livro. Senti vergonha por não contribuir em prol da cultura da cidade, tomei vergonha na cara e fui dar uma olhada. Quase na hora de ir embora senti vergonha novamente por querer economizar os poucos trocados que trazia na carteira e, para me sentir uma cidadã melhor, comprei logo um L&PM Pocket que não faria tão mal ao orçamento. Engraçado, porque nunca fui de me enganar que estava na Europa brasileira e forçar a barra lendo no meio da praça, mas hoje resolvi “inovar”. Peguei meu L&PMPocket (livro de gente com pressa) e sentei perto do tio que tira fotos naqueles cavalinhos, em frente a um senhor vendendo picolé e ao lado de uma senhora gordinha simpática. Engraçado porque nessas situações as pessoas começam a parecer mais sociáveis ou a gente que se tornou mais sociável só em parar um pouquinho no meio da Feira. Lembrei da primeira vez que andei de avião, do medo que eu sentia e do cara que sentou do meu lado naquele ônibus que anda pelo aeroporto. Acho que ele sacou minha angústia e foi logo fazendo perguntas sobre a minha vida, se eu era arquiteta por carregar um “tubo” e o que eu fazia em Porto Alegre. Também acho que ele ficou decepcionado porque eu não era arquiteta e só levava um banner no maldito “tubo”, acho que o fato de eu ser de Pelotas me transformou em uma pessoa muito mais distante daqueles outros que voltavam para sua “POA” do coração. Engraçado, eu que falo muito falei pouco com ele. Mas daí ele começou a assobiar “A Rosa”, porque acho que também ficava nervoso, e eu pensei: “e o meu projeto de vida?”. Voei tranquila cantarolando baixinho: “bandida, cadê minha estrela guia...”. As pessoas são muito mais legais do que a gente acredita que sejam. A Feira, a praça, o tio que tira foto nos cavalinhos há uns 20 anos, o picolezeiro, até meu livro de gente apressada, são muito mais legais se a gente se propõe a enxergar isso. Hoje eu me propus, ouvindo o cara assobiar Chico eu me propus, tenho é que fazer isso mais vezes.
1 de novembro de 2011
a culpa é do Fidel
A primeira vez que eu vi piadinhas na internet pensei que eram só mais alguns dos tantos babacas que a gente vê por aí. Eu deixei de escrever porque tendo lido muito e se tem uma coisa que eu aprendi é que as pessoas precisam de alguma bandeira para levantar. “Saiu de moda falar do idiota do Rafinha Bastos, então vamos falar o que não sabemos sobre o Lula”. Prometi a mim mesma que eu não me meteria nessa. Faz um tempo que eu estou contida e não discuto sobre política. Só que dessa vez, ou eu sairia no braço com alguém ou só perderia tempo (o que esse ano está sendo muito valioso).
Acontece que eu dei a sorte (ou o azar, vai saber) de cair em uma família politizada. Com pais que sempre foram de esquerda, que fugiam do DOPS e que trabalharam pra que o nosso país fosse o que é hoje.
Acontece que é mais do que isso. Acontece que a minha mãe também teve câncer e se tratou pelo SUS, esse mesmo das piadinhas (posso dizer de boca cheia que isso não foi um dos momentos mais engraçados da minha vida). Acontece que o meu pai é safenado e também se tratou pelo SUS. Acontece que eu não consegui ficar quieta ao ler pela enésima vez alguém fazendo piada sobre essa situação. Meus pais, aqueles que lutaram pelo “poder” da esquerda no Brasil, foram contemplados pelo “país de todos”.
E mesmo que eu esteja ocupada e só sinta vontade de mandar todo mundo calar a boca (assim mesmo, bem estúpida), me dei ao luxo de parar tudo e escrever aqui a minha vergonha alheia. Vergonha de quem fala sem saber sobre o que está falando, vergonha de quem “compartilha” sem saber porque está compartilhando, vergonha de quem macaqueia e “segue” alguém sem sentido, vergonha de quem não reconhece onde chegamos (e o homem que nos encaminhou a este desenvolvimento) e vergonha de quem finca os pés na ignorância e nos impede de ir para frente.
(Agora eu vou voltar a estudar porque preciso que esse meu computador comprado em doze vezes com uma bolsa do MEC seja usado em prol de algo melhor do que lições de moral.)
28 de outubro de 2011
pra dar o fora com o meu broto
Só sei que quando acabar essa maratona eu vou curtir com o meu broto. Dando tudo certo ou dando tudo errado eu vou curtir com o meu broto um bocado de dias. Vou colocar todos os livros de volta na estante, o Omeprazol de volta a caixa de remédios e vou dar o fora com o meu broto. Porque eu “nunca fui muito de ganhar” e a probabilidade de me dar mal é muito grande. Também porque, se tudo der certo, preciso acumular muita coragem e pra isso nada melhor que uma viagem. Eu vou viajar com o meu broto. Tirar fotos com ele. Conhecer um punhado de lugares diferentes ao lado do meu broto. Vou comer um monte de coisas exóticas e torrar todas as minhas economias em chinelos havaianas e água de côco. E então eu vou voltar. Caso tudo dê certo, caso tudo dê errado, eu terei que voltar. E aí, depois eu vejo, acerca da vida, das economias e do acúmulo de chinelos. Só sei que agora eu preciso dar o fora com o meu broto e mais nada.
21 de agosto de 2011
quer ser meu amigo?
Tem dias que sinto vontade de arrancar meu coração fora. Vê-lo e segurá-lo forte. Abraçá-lo até ele se acalmar e ficar mansinho. Depois, convencê-lo de que não há motivo para a tormenta, para a agonia, para sentir-se só. Eu o colocaria para ouvir jazz e nós dois fingiríamos que gostamos. Tem dias que eu queria ser amiga do meu coração, mas ele simplesmente me ignora.
5 de julho de 2011
pelo meio de tudo

Eu nunca disse que seria tranquilo ficar distante de quem a gente ama. Nunca disse que seria simples fazer planos furados. Nunca passou pela minha cabeça que o último ano de faculdade seria moleza. Nunca desdenhei os trabalhos de final de semestre, os livros, os prazos. Nunca faltei com os compromissos e nunca disse que queria desistir de tudo. Acho que nunca quis que fosse fácil e nunca comentei que estava sendo muito difícil. Como em uma bola de neve já nem sei onde tô em meio a tudo isso. Em meio a tanta distância, prazo, livro, neve. Tô pelo meio. De tudo isso.


























