Por amor à meu pai, por amor à meu tio, por amor à felicidade.
Onde eu possa plantar meus amigos, meus discos e livros, e nada mais...
Por amor à meu pai, por amor à meu tio, por amor à felicidade.

E isso constitui muito mais que o simples acontecimento de desamparar um vício. Não pelos ameaças de má saúde. Mas para provar a mim que certas coisas, arduamente, podem ser deixadas de lado.
Não há necessidade disso. Segunda feira inicio uma dieta, talvez arranje grana para uma academia de ginástica. Não. Deixa a academia de lado, vamos transformar isso em hora estudo. Para quê tanto açúcar? Acho que estou tornando-me neurótica. Tantas xícaras por dia. Sem contar os copos na escola. Mas, é para deixar-me bem acordada. E de que adianta tanta cafeína? São apenas impulsos do teu cérebro. Não. Hoje ainda tomo mais um.
Isso ainda me mata. Será mesmo que meu estômago não suporta a cafeína? Tão pouco não me faria doer. Ou faria. Na verdade, é muito. Ok, ao final desta chávena tudo estará acabado entre nós. Não me olha desse jeito. Não sou o malvadão da relação. Fazes-me mal, e nunca solucionaremos isso. A vida é injusta Nês, não improvisa de mim uma monstruosidade. Vou te abandonar e isso é para toda a vida. Adeus.
Na abertura do armário emperrado, sinto a presença. Ultrapasso as mãos, vou direto ao chá. Algumas vezes mudamos princípios pela tranqüila felicidade. Aprendemos a gostar deles e entendemos que o “amor” não basta para o “todo sempre”. Modificamos valores em busca do perfeito, extraordinário, sem falhas, sem contra-indicações. O ser humano é comodista. Mas afinal, tanto faz, o futuro reserva algo especial consecutivamente. O mundo acaba colocando-nos em nossos devidos lugares. E eu sempre gostei do sotaque britânico. Vê se toma cuidado por aí. Qualquer dia nos cruzamos nas prateleiras da vida. Quiçá nós voltemos à dupla que éramos. No entanto esse é o momento em que todo vício deixa de ser excelente e cruza a barreira à conhecida sensação de dependência. Nós não somos assim, e não posso permitir tamanha atrocidade. Até mais Café, até mais.

Os artefatos ao meu redor tem uma historinha. Quem já não olhou para eles? Que lembranças devem trazer? Cada qual com sua poesia subentendida, a magia das pequeninas partículas formando um elemento historicamente ilusionista. São muito mais que minhas milhões de palavras neste humilde estabelecimento. É um verdadeiro turbilhão de anseios silenciosos no atrito estático do corpo em movimento nulo. Como pode.
Li um livro – ótimo – a pouco. Lygia Fagundes Telles, no último conto do livro descreve a história de um anão de jardim. O escrito se passa através dos sentimentos e aforismos do pobre enfeite, e isso pareceu-me curioso. Comecei fundamentalmente pelas paredes de meu quarto. Logo após minhas folhas, o abajur, os tênis. Todos com sua existência e culpabilidade, aguardando o final de sua vida útil.
Cheguei a conclusão de que se minhas meias pudessem discorrer, simplesmente, me odiariam. Minhas almofadas me adorariam, e os discos do vovô falariam bem sobre minha pessoa.
No entanto, um dia eles vão embora. Perdidos em caixas de mudanças, ou talvez desprezados na passagem dos anos. Cada qual tão meu, com nossa história, suas e minhas. Serão de outra pessoa, serão do mundo, terão mais e mais historietas. Crueldade pura.
Não fica triste Abajur. Prometo te levar comigo pro resto de minha crédula vida útil. Terás tempo de me expor por onde já passastes, e me relembrar de tudo que já fui. Tu és o cais entre meu passado e os momentos que ainda virão. Teremos ótimas risadas, porém, agora temos que dormir, boa noite.
Nas férias cortei os cabelos. A franja propriamente. Uma franjinha de criança. Já fui comparada a índia, menininha e até mesmo um York Shire – por meu dócil colega crítico -. Porém, uma opinião – especial do Paulo, grande amigo – me deixou contente: - Gostei, é bem, Lanna.
Roubei de giro a faixinha de tempos atrás – cerca de quando tinha nove, dez anos -. Voltei a desenhar.
Quando era criança assistia diariamente um programa apaixonante. Lembro ser da programação do Discovery Channel, - meu canal favorito, onde as coisas mais mirabolantes da Tv infantil aconteciam, sem desperdiçar o Cartoon, obviamente -. Lá estava eu – em minhas férias de televisão/comida/sono –deparando-me com a propaganda do lançamento do programa no Disney Channel. Não poderia ser verdade. Pois era. Uma felicidade tomou-me por instantes. Voltei a fazer arte. Acredito estar “regredindo”, ou coisa parecida, por enquanto isso não me pareceu má idéia.


Voltando para casa em um dia chuvoso, medito no ônibus certos momentos do cotidiano humano.
Nunca resvalei em uma casca de banana.
Moças da Assembléia de Deus (com suas longas tranças e saias) não conseguem correr.
Colar é feio. Quando sabe-se a matéria e troca-se a resposta, é pior ainda.
Tecnologias como “Mp4” não são feitas para pessoas com QI baixo. Essas não têm nada de “seu”. (Sim, o mundo é injusto.)
O “Som da Helô” (junto com o show do Sovaco de Cobra) estava formidável, e a palavra formidável já deveria ter desaparecido dos vocabulários.



Praticante de xenofobismo, racismo e outras cositas, a interpretação de seus filmes e representações não poderia ser pior, na visão científica. Rei Leão e Mickey perderam seu “valor” diante do mundo – meu – após aquele dia.


O ser humano é realmente bichinho engraçado. A cada dia me certifico de que os sinônimos para essas abomináveis criaturas sejam inúteis tamanha falta de “ser humano”. Até mesmo o sentimento que os torna privilegiados à diferenciação de qualquer espécie do planeta: a paixão. Quiçá ela é uma mentira?
Hoje pela tarde - em meio a aula de biologia - começo idealismos particulares sobre a falta de interesse contínuo na pessoa – aquela pelo qual se dizem arrebatados -. A forma como ele sorri, como ela dorme, como ele tem vergonha, como ela não, esses momentos tão eternos parecem se esvair no tempo. Porém, são episódios insubstituíveis. E então começa a falsidade.
É impossível encontrar em outro “ser” qualidades antes vistas, ocasiões antes atravessadas. As pessoas não se apaixonam pelo cujo que encontram, essas se encantam pela imagem que recebem. Procuram nos próximos tal e qual, e assim gostam cada vez mais dos mesmos valores descobertos.
Não cito as grandes paixões. As verdadeiras? Absolutamente não. Essas são para sempre pelo fato de que mesmo encontrando “made in paraguay” nunca perderiam sua integridade e honestidade do sentimento puro.

Fazer aniversário é muito mais. É o tempo representando em algarismo os momentos deixados para trás, a passagem do calendário abre portas para uma “nova era”, novo capítulo, páginas em branco de uma mesma vida. O papel acompanha o destino em suas mil trajetórias, tornando-nos sedentários diante os segundos.
Fazer aniversário solicita bolo, parabéns, abraços, presentes e muito carinho. Além disso, requer uma interpretação muito além do simples passar das horas, é o amadurecimento da idéia do ser, é a contemplação da juventude mostrando suas mil facetas.
Não basta à mim apagar velas. São inúteis os números diante tal moleca interior, a cada ano que passa peço para que esse regresse em proporção contrária, como se ao fim da chama rejuvenescesse a mulher que se apresenta.
E aquela “gasguita” de cabelos negros escorridos pelo ombro hoje faz dezessete, amanhã quiçá seus vinte, e logo então cinqüenta. Ela nunca abrirá mão de sua espada Jedi e seu orgulho, terá sempre um sorriso aberto para seu amor e um laço de ternura para quem souber manuseá-lo. Suas sapatilhas aladas serão dançarinas das linhas da estação e para sempre saberá os sentidos de seus pequenos versos. Com a mistura de boneca e “nenê” levará a vida de sua forma: sem observar os relógios. Por favor Senhor Tempo, não deixe Neneca crescer jamais.

Minha última inventada é fazer Engenharia. Lanna e cálculos pode parecer até piada, porém meu interesse por Matemática e Física tem se acentuado a cada dia que passa. Usam da lógica para a expressão de fatos deixados de lado e isso pode até ser legal, dependo do ponto de vista.
Os amigos dizem que conseguem imaginar-me na posição de responsável Engenheira – sobresaindo a todas as outras opções que dei para pensarem-. Eu, no entanto, não abro mão do Design – a arte predomina à coerência dos números-.
Tenho cerca de cinco meses para colocar os planos em seus devidos lugares. Porém, a idéia exacerbada agora é fazer os dois. Mesmo recebendo a taxa de alucinada.
Os extremos podem ser muito bem empregados. Vou saber abusar disso.

Falta entender o que me faz pensar que só ele pode ter tanta paz para me dar... Eu te vi e cheguei pra falar: Tudo certinho?” (Hermanos)

As pessoas têm se tornado a cada dia mais engraçadas. É hilariante a atual situação dos pontos de vista. Virou mania nacional o “estranho”. O que antes era chutado para fora dos moldes, hoje faz parte da maioria dos guarda-roupas e cérebros. Talvez uma lavagem cerebral das grandes passarelas, dos grandes estilistas, da mídia, não importa. Mas algo é certo: CASO TENHAS UM QUÊ DE ESTRANHEZA JUNTA-TE ÀQUELES TEUS IGUAIS E SEJA MODERNO.
-Oi garota! AÍN AMIGÃN como você é cool, uma síndrome? Ai que show! Eu tenho um distúrbio!
-Nossa AMIGÃN como nós somos legais!
O fato de acordar pela manhã, colocar uma camiseta amassada, não fazer a barba, (até mesmo não tomar banho) hoje é feito por pessoas que nunca pensariam em participar de tal situação, porém é natural que não o façam por atitude, e sim, força da idéia.
O que antes se mostrava como quebra às regras do sistema hoje mais parece uma corrida contra o correto, arrumado, “direito”. Corrida em busca do egocentrismo e individualismo.
O que todos procuram ultimamente é o destaque. Procuram a evidência em meio ao caos, um querer bem entre a sociedade, ser taxado inteligente, culto, ou “aquele que não liga para os protótipos” (mesmo que isso implique em ter 6 dedos, ou algo parecido) .
Pois, contra que sistema lutam? Que ideais possuem estes? Será necessário gostar de Beatles (ou qualquer banda antiga/revolucionária) para encaixar-me nos padrões agora estabelecidos? Onde ficam os verdadeiros “chuto o balde e não me importo com nada disso” em meia tamanha igualdade de idéias?
“Sem querer querendo” a juventude tem criado os exemplos que daqui a certo tempo serão repudiados por nossos filhos. E então o gel de cabelo será o novo. E cuidado futuras mamães: Será preciso muita goma para as camisetas pólo.
Beirando os dezessete anos estás a um passo de decidir um futuro provavelmente dessemelhante do que venhas a ganhar. Talvez tuas alternativas sejam do agrado de teus pais e teus familiares. Talvez escolhas uma profissão bem conceituada, abrangente, que ofereça status e ótimas perspectivas financeiras. Talvez optes em favor de tua vontade.
O fato é que: Independente do que decidires para a tua vida, se as opções não te fizerem realmente crer no papel que assinas, seja lá o que for, dar-te-ão como bônus dos teus dias o recíproco do teu desgosto. Serão chatos, entediantes, monótonos e tu passarás a ser abominado entre teus colegas. Terás dinheiro e junto a ele, principalmente, amargura. Como um vazio insuficientemente completo de aparências e dólares.
Terás que colocar em pauta teus valores, tanto morais como espirituais. Aprender a ouvir, mesmo opiniões adversas, mesmo injúrias, mesmo ignorâncias. Porém, terás especialmente que optar pela primorosa passagem dos dias sem esperanças de orgulhar àquelas que esperam algo diferente de ti. Terás que mostrar a eles o quanto podes ser diferenciado desta massa servil sendo exatamente da forma que és. E assim sendo, terás a auto-confiança na profissão que se assemelha a ti, e por conseguinte darás a quem merece um tanto de admiração por teus atos.

Ao abrir os olhos reparou no acanhado risco de sol ultrapassando as fronteiras da remota janela de madeira. Ao deparar-se com tamanha desenvoltura permaneceu por um duradouro espaço de segundo entorpecida. Percebeu a liberdade daquelas partículas dançarinas do ar. Dançarinas de uma melodia silenciosa da respiração humana. Tão cotidianamente acostumada e desprendida. Sentiu inveja de tal alvedrio, tal desambição. E questionou seu modo de vida.
Teu contrário me agrada, me transborda de contentamento, luxúria, avareza. Despertas em mim os pecados impuros de uma alma arrebatada de sentimentos melancolicamente alegres. Tu és o pretexto da minha felicidade e do meu orgulho.
Dizer que és direita e eu esquerda, que és o silêncio e eu o esparro, és a noite e eu amanhecer, enche-me de interesse sobre como desta tua figura tão avessa formas um desenho tão propicio. Encontras em mim o espaço para tuas histórias ocultas e me ofereço em branco para fazer parte dos teus pensamentos extra-normais.
És o negro reflexo dos meus olhos, abarrotados de benignidade por ti, o avesso do que sempre quis, e no entanto, o que sempre fará de mim o oposto imprescindível.

Tenho vontade de tirar férias. Férias de meus trejeitos, trajetos, minhas manias, cobranças, idéias formadas, reclamações, espelhos. De meu quadrado, minha alcova, minha vida. Arremessar tudo para o alto, dormir até doer a base, rir até a barriga dizer chega.
Férias de tudo que me desgasta, me atormenta, me desassossega. Comer chocolate, tomar café, não me preocupar com a saúde. Férias desta imagem, de tudo que ditame lógico, estético.
Férias de mim mesma.
“Tá difícil ser eu sem reclamar de tudo. Passa nuvem negra, larga o dia, e vê se leva o mal que me arrasou pra que não faça sofrer mais ninguém. Esse amor que é raro e é preciso pra nos levantar me derrubou, e não sabe parar de crescer e dor. Não adianta me ver sorrir, espelho meu, meu riso é seu, eu estou ilhada."
Nana Cayme



